Olá Marcelo, Evandro, Júlio e colegas. Marcelo, eu não ignorei a dificuldade de montar uma banca. Eu concordei que o modelo proposto pode ser estratégico, que é o que vc defende. Mas não há como negar que a formação da banca previamente, tendo em vista q a eliminação dos candidatos ocorre em função da banca, inverte a ordem e já insere uma subjetividade muito maior no processo, o que pode ser considerado contraditório com o princípio constitucional (não sou jurista, mas defendo essa interpretação). Um exame seletivo, em si, não é ruim, e concordo que deva existir. Mas, em sua natureza, não é uma avaliação e a proposta inverte essa ordem e confunde as coisas (é possível complicar a questão, mas, para essa distinção, sugiro conhecer o trabalho do professor Cipriano Luckesi). Por isso, é preciso por os pingos nos is e não confundir o que é justiça e o que é idoneidade. É possível uma banca não idônea em qualquer modelo? Sim, tanto quanto uma idônea. Mas no modelo "alternativo", a idoneidade do próprio processo é q está mais fortemente comprometida, independentemente do caráter de quem forma a banca. Agora, vamos às idealizações. A formação de uma banca "justa e balanceada" é uma ilusão em si. A dificuldade de formar a banca após a inscrição dos candidatos não cria a idealização, ao contrário, é uma forma de eliminá-la. Se a realidade das inscrições torna impossível formar uma banca "justa e balanceada", pois é, o real tem essa característica de destruir nossos sonhos tão mesquinhos, já cantava Cartola. Seja ao menos pelo fato de q a comunidade científica brasileira não conseguiu acompanhar sequer a tímida expansão de sua pós-graduação nos últimos 20 anos. Mas podemos ficar tranquilos. Na academia, as coisas só mudam mesmo quando a velha geração morre para dar lugar à nova. Mudanças estruturais não demorarão a acontecer. Isso não é opinião minha, Thomas Kuhn já sinalizava esse fenômeno na dinâmica da produção científica. A questão então é exatamente essa: o novo modelo proposto é estratégico, pode até facilitar o trabalho da banca, mas é em sacrifício à justiça do processo, se considerarmos o padrão de direito objetivo, e não subjetivo (em resumo: no direito subjetivo, vale a alegação do sujeito de direito; no objetivo, vale o critério estabelecido por instância alheia ao sujeito de direito, relativamente a qualquer alegação que este possa levantar). Agora, se a opção for pela hegemonia do direito subjetivo, não há contradição com o modelo da sociedade civil-burguesa ultra individualizada em hoje vivemos, afinal, o princípio do direito moderno é o subjetivo, pois direitos iguais aos iguais, além de ser outra ilusão, implica em licença para agir individualmente, o que também não é sinônimo de liberdade. Em termos mais científicos, o que está em questão, de uma perspectiva social, é o enfraquecimento de uma concepção republicana em favor de outra, mais liberal burguesa, ou neoliberal, se preferirem. E essa minha última afirmação tampouco é uma ilusão ou idealização, é só uma constatação. Nesse sentido, a posição do Júlio me parece mais coerente, embora eu, particularmente, lembro que no Brasil a indissociabilidade entre ensino e pesquisa ainda não foi juridicamente desmontada (embora, na prática, muitos colegas ainda muito primitivamente achem que dar aula é um "pedágio" pra fazer pesquisa e que, pior, uma coisa nada tem que ver com a outra). Então, entre a necessidade e o desejo há uma distância, pra dizer o mínimo. Não há relação necessária entre ser professor e ser pesquisador, mas é necessário buscar alguém que seja razoavelmente um e outro (isso sem falar em extensão). Não é um ou outro modelo de concurso que vai garantir isso, mas o modelo vigente prevê várias fases diferentes em função dessa ideia de indissociabilidade. Agora, se me permitem, vou dar minha opinião particular e subjetiva, q evidentemente não é dirigida pessoalmente a ninguém aqui. Acho muito sintomático que haja tanta falta de criatividade e de critérios conceituais para pensar um processo mais atualizado que atenda às necessidades e limitações reais das nossas instituições. Essa argumentação generalizada de "é injusto", "banca justa e balanceada assim é impossível", me parece muito condizente com o jeitinho brasileiro de resolver tudo entre amigos, familiares e agregados. Pode até parecer muito lógico e razoável, mas se cavucar... Abraços.
Cassiano Terra Rodrigues Prof. Dr. de Filosofia - IEF-H-ITA Rua Tenente Brigadeiro do ar Paulo Victor da Silva, F0-206 Campus do DCTA São José dos Campos São Paulo, Brasil CEP: 12228-463 Tel. (+55) 12 3305 8438 -- lealdade, humildade, procedimento Em sex., 15 de ago. de 2025 às 13:55, Julio Stern <[email protected]> escreveu: > Caros: > Meus 2 centavos... > > Na minha opiniao, toda esta discussao esta fora de foco. > Em uma "Universidade de Pesquisa", queremos contratar "Pesquisadores"! > Isto deveria ser o obvio ululante. > > Assim, a prova eliminatoria pode ser feita apenas com > (1) Curriculo Lattes; e (2) Projeto de pesquisa de 2 folhas (frente e > verso); So! > > Restando meia-duzia de candidatos, da para pedir uma aula didatica, > e uma palestra (ou aula de 4 horas?) sobre o tema de sua especialidade. > > Estes procuradores ficam pondo "regras objetivas" no concurso como > se estivessemos contratando tecnico de manutencao de ar condicionado... > > Se eh para ter regra objetiva, exija-se indices bibliometricos como > h-index, i-10, > para ranquear os inscritos e eliminar todos menos o topo da lista. > Depois, avaliacao pessoal, presencial e seria com aqueles nao eliminados. > > Meus 2 centavos... Tudo de bom, ---Julio > > > ------------------------------ > *From:* [email protected] <[email protected]> on behalf of > Marcelo Finger <[email protected]> > *Sent:* Friday, August 15, 2025 11:33 AM > *To:* Cassiano Terra Rodrigues <[email protected]> > *Cc:* LOGICA-L <[email protected]>; Thiago Nascimento da Silva < > [email protected]>; samuel <[email protected]> > *Subject:* Re: [Logica-l] (OFF ?) Sobre seleção docente > > Oi Cassiano. > > Obrigado por sua análise, mas você deixou de fora o ponto principal da > nova proposta: a dificuldade que é montar uma banca e fazer um concurso. > > Anuncia-se uma vaga e se inscrevem 53 candidatos. Isso não é nenhuma > raridade, tem acontecido com frequência. Como não se sabe quantos vão > aparecer, tem que se montar uma banca supondo que os 53 candidatos venham > fazer a prova e encontrar membros de alto nível que se disponham a ficar 2 > semanas inteirinhas presencialmente ouvindo aulas básicas e corrigindo > provas de 53 candidatos. Na prática, raramente aparecem mais de 15, o que > já é um estorvo, mas ninguém aceita disponibilizar 2 semana para participar > de uma atividade como essa, > > A solução é algum tipo de prova eliminatória e remota. Para viabilizar o > concurso. > > []s > > > On Fri, Aug 15, 2025 at 12:28 AM Cassiano Terra Rodrigues < > [email protected]> wrote: > > Olás, > eu li os artigos e decidi escrever porque nos deparamos com essa discussão > lá na minha instituição, onde agora os dois modelos de edital, o > tradicional e esse a q chamam de "mais justo e estratégico" são possíveis. > Um dos argumentos para fazer passar esse modelo foi q pesquisadores mais > experientes e gabaritados acham constrangedor ser submetidos a uma prova > escrita. De minha parte, argumentei q acho constrangedor um professor se > recusar a fazer uma prova e ser contratado para submeter os estudantes a > tal (sem mencionar a aversão à escrita, q entendo como sinal de aversão > maior, mas deixa isso pra lá). > Seja como for, o primeiro ponto relevante a ser lembrado é que a > experiência mostra q onde há injustiça, há quebra de direitos. Assim, não > parece muito correto dizer q o modelo proposto é mais ou menos justo, pois > não há direitos dos candidatos que tenham sido desrespeitados. > No modelo tradicional conhecido, a etapa da prova escrita, se seguida com > o rigor do rito completo, isto é, sorteio de pontos, correção às cegas e > leitura pública com a presença dos demais candidatos, garante um mínimo de > impessoalidade, exigência de salvaguarda da própria natureza do Estado. Nas > etapas posteriores, evidentemente, a subjetividade se impõe, mas o processo > estaria resguardado de início. Não vejo como um sorteio de pontos pode > significar injustiça, nem q seja 1 único. Se o problema é dar mais chances, > basta sortear mais de 1 ponto e facultar a escolha do ponto a ser redigido. > No modelo que certamente pode ser chamado de estratégico, não me parece > claro onde estaria o momento de objetividade e impessoalidade. Por isso > mesmo ele pode ser considerado estratégico, se por estratégia entendermos > não apenas um planejamento simples, mas uma metodologia que envolve > planejamento, execução e decisão sobre os resultados. > Não sei como cada instituição define quais concursos poderiam adotar esse > modelo, em que situações etc. Mas tenho dúvidas sobre a justiça ou > injustiça do processo. > Abraços, > cass. > > On Tuesday, August 12, 2025 at 12:26:05 AM UTC-3 Thiago Nascimento da > Silva wrote: > > Por outro lado, em seleções com seleção preliminar de perfis, ficará mais > difícil fiscalizar situações como esta: > > > https://www.metropoles.com/colunas/guilherme-amado/usp-se-pronuncia-apos-aprovacao-de-professor-por-indicacoes > > Em sex., 8 de ago. de 2025, 10:55, 'Samuel Gomes da Silva' via LOGICA-L < > [email protected]> escreveu: > > > https://jornal.usp.br/artigos/por-um-modelo-de-selecao-docente-mais-justo-e-estrategico/ > -- > LOGICA-L > Lista acadêmica brasileira dos profissionais e estudantes da área de > Lógica <[email protected]> > --- > Você recebeu essa mensagem porque está inscrito no grupo "LOGICA-L" dos > Grupos do Google. > Para cancelar inscrição nesse grupo e parar de receber e-mails dele, envie > um e-mail para [email protected]. > Para ver esta conversa, acesse > https://groups.google.com/a/dimap.ufrn.br/d/msgid/logica-l/1634120443.3089324.1754661299783.JavaMail.zimbra%40ufba.br > <https://groups.google.com/a/dimap.ufrn.br/d/msgid/logica-l/1634120443.3089324.1754661299783.JavaMail.zimbra%40ufba.br?utm_medium=email&utm_source=footer> > . > > -- > LOGICA-L > Lista acadêmica brasileira dos profissionais e estudantes da área de > Lógica <[email protected]> > --- > Você recebeu essa mensagem porque está inscrito no grupo "LOGICA-L" dos > Grupos do Google. > Para cancelar inscrição nesse grupo e parar de receber e-mails dele, envie > um e-mail para [email protected]. > Para ver esta conversa, acesse > https://groups.google.com/a/dimap.ufrn.br/d/msgid/logica-l/a59b68c8-eb3c-4943-b530-688cba134979n%40dimap.ufrn.br > <https://groups.google.com/a/dimap.ufrn.br/d/msgid/logica-l/a59b68c8-eb3c-4943-b530-688cba134979n%40dimap.ufrn.br?utm_medium=email&utm_source=footer> > . > > > > -- > Marcelo Finger > Departament of Computer Science, IME-USP > http://www.ime.usp.br/~mfinger > ORCID: https://orcid.org/0000-0002-1391-1175 > ResearcherID: A-4670-2009 > > Instituto de Matemática e Estatística, > > Universidade de São Paulo > > Rua do Matão, 1010 - CEP 05508-090 - São Paulo, SP > -- > LOGICA-L > Lista acadêmica brasileira dos profissionais e estudantes da área de > Lógica <[email protected]> > --- > Você recebeu essa mensagem porque está inscrito no grupo "LOGICA-L" dos > Grupos do Google. > Para cancelar inscrição nesse grupo e parar de receber e-mails dele, envie > um e-mail para [email protected]. > Para ver esta conversa, acesse > https://groups.google.com/a/dimap.ufrn.br/d/msgid/logica-l/CAGG7Aw1Ee0C0FjTiX8Yi-0WsanHw3D1BrVUu81TfD6Qe-wPPmw%40mail.gmail.com > <https://groups.google.com/a/dimap.ufrn.br/d/msgid/logica-l/CAGG7Aw1Ee0C0FjTiX8Yi-0WsanHw3D1BrVUu81TfD6Qe-wPPmw%40mail.gmail.com?utm_medium=email&utm_source=footer> > . > -- LOGICA-L Lista acadêmica brasileira dos profissionais e estudantes da área de Lógica <[email protected]> --- Você está recebendo esta mensagem porque se inscreveu no grupo "LOGICA-L" dos Grupos do Google. 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