Caro Rodrigo,

Obrigado pela sua resposta.
Entendi agora qual é o caminho que você está vendo.

Como há mais pessoas lendo essa discussão,  se me permite, vou apenas dizer 
algo sobre a literatura: esse problema do enforcado apareceu, conforme já disse 
a professora Andreia, num livro de Quine, cujo título é “Ways of Paradox”. No 
primeiro capítulo desse livro, Quine faz uma exposição da distinção entre 
falácia e paradoxo. No segundo capítulo, páginas 21 a 23, ele aborda esse 
problema dando a entender que não é um paradoxo de verdade, mas apenas um caso 
de um sujeito que raciocinou errado sobre uma proposição. Vale a pena ler o 
livro só por esses dois capítulos.


> On 24 Mar 2020, at 19:35, Rodrigo Freire <[email protected]> wrote:
> 
> 
> Não é a lógica (modal) que é inconsistente, é a teoria modal em que o rábula 
> raciocina. Vamos analisar esse raciocínio para tentar esclarecer.
> 
> Seja K o operador de conhecimento de véspera, ~ o operador de negação, p1 a 
> proposição que diz que o enforcamento será na segunda, ..., p5 a proposição 
> que diz que o enforcamento será na sexta.
> 
> O rábula admite como axiomas
> 
> A: (p1 e ~K(p1)) ou ... ou (p5 e ~K(p5)). [a interpretação dele da sentença]
> 
> 
> B1: p1 implica ~p2 e ... e ~p5
>  .
>  .
>  . 
> B5: p5 implica ~p1 e ... e ~p4
> 
> C: p5 implica K(p5)
> 
> D: K(~p5) implica (p4 implica K(p4))
> 
> E: (K(~p5) e K(~p4)) implica (p3 implica K(p3))
> 
> F: (K(~p5) e K(~p4) e K(~p3)) implica (p2 implica K(p2))
> 
> G: (K(~p5) e K(~p4) e K(~p3) e K(~p2)) implica (p1 implica K(p1))
> 
> Agora o raciocínio:
> 
> - A partir de C, de B5 e de A, conclui-se ~p5. Da necessitação, que o rábula 
> assume pois o que ele deduz ele considera como conhecimento de véspera, 
> K(~p5).
> 
> - A partir de K(~p5), de B4, de D e de A, conclui-se ~p4.  Da necessitação, 
> que o rábula assume pois o que ele deduz ele considera como conhecimento de 
> véspera, K(~p4).
> 
> - A partir de K(~p5), K(~p4), de B3, de E e de A, conclui-se ~p3.  Da 
> necessitação, que o rábula assume pois o que ele deduz ele considera como 
> conhecimento de véspera, K(~p3).
> 
> - A partir de K(~p5), K(~p4), K(~p3), de B2, de F e de A, conclui-se ~p2.  Da 
> necessitação, que o rábula assume pois o que ele deduz ele considera como 
> conhecimento de véspera, K(~p2).
> 
> - A partir de  K(~p5), K(~p4), K(~p3), K(~p2), de B1, de G e de A, conclui-se 
> ~p1. 
> 
> - A partir de  ~p5, ~p4, ~p3, ~p2, ~p1 e de A, conclui-se bottom.
> 
> Abraço
> 
> 
> 
> 
>> On Tue, Mar 24, 2020 at 6:54 PM Andrea Loparic <[email protected]> wrote:
>> Ah, tá. Eu não tinha entendido sua primeira msg.
>> Também acho que o furo do rábula tem a ver com "saber" e 
>> que já a eliminação do último dia não se sustenta, ou seja, o
>> "se eu fosse morrer no sábado, eu saberia na sexta que 
>> ia morrer no sábado" é falso e ele não poderia impugnar
>> a sentença na sexta dizendo algo como "eu não vou morrer 
>> amanhã pois eu estou sabendo hoje que vocês vão me matar 
>> amanhã"... 
>> 
>> 
>>> Em ter., 24 de mar. de 2020 às 18:27, Rodrigo Freire <[email protected]> 
>>> escreveu:
>>> A sentença do rei é mais que sustentável, ela de fato ocorre, não é?
>>> O raciocínio do rábula não é sustentável, como não são alguns raciocínios 
>>> que contém a noção metalinguística de "verdade" na linguagem objeto. Ele 
>>> poderia, por exemplo, dizer ao rei: "se o que estou a dizer é verdade, 
>>> então sou inocente". O rei teria que concluir que essa frase é verdadeira, 
>>> portanto que o rábula é inocente. É essa analogia que faço.
>>> No caso em questão, o raciocínio contém a noção metalinguística de "saber" 
>>> na linguagem objeto. 
>>> Meu ponto é que isso gera um sistema inconsistente, como a inclusão da 
>>> noção metalinguística de "verdade" na linguagem objeto. 
>>> 
>>> 
>>> 
>>> 
>>> On Tue, Mar 24, 2020 at 6:14 PM Andrea Loparic <[email protected]> wrote:
>>>> Então não entendi sua posição antes.  Deixe ver agora:
>>>> Na sua opinião, a sentença do rei é sustentável e
>>>> é o raciocínio do rábula que não é?
>>>> E você estava mostrando por que a argumentação do 
>>>> rábula está furada, é isso?
>>>> 
>>>>    Livre de vírus. www.avast.com.
>>>> 
>>>>> Em ter., 24 de mar. de 2020 às 17:50, Antonio Marmo 
>>>>> <[email protected]> escreveu:
>>>>> Pois é preciso dizer antes em quais termos se coloca o problema para 
>>>>> pensar a solução. Ainda assim, isto não garante que alguém não o resolva 
>>>>> pensando “fora da caixa”.
>>>>> 
>>>>> A lenda do nó górdio é um exemplo óbvio. Alexandre o Grande teria sido o 
>>>>> único que resolveu o problema passando a espada, ao passo que todos antes 
>>>>> dele pressupuseram que a proposta era desfazer o nó sem partir a corda.
>>>>> 
>>>>> Voltando ao problema específico: as Cortes de Lisboa determinam que 
>>>>> El-rei D. João VI deve voltar à Lisboa. O monarca responde: “um dia eu 
>>>>> volto, hoje não.” Como vamos analisar o problema? Usando alguma lógica 
>>>>> epistêmica conhecida, como T ou D? Usando da simples lógica proposicional 
>>>>> clássica? Ou vamos observar como as pessoas intuitivamente reagem ao 
>>>>> problema?
>>>>> 
>>>>> No caso do exemplo histórico, os deputados portugueses não se 
>>>>> surpreenderam com o retorno de D. João VI quando aconteceu. Na verdade, 
>>>>> ao ouvirem dele que regressaria algum dia, mas sem uma data marcada, 
>>>>> entenderam que ele não regressaria e o pressionaram até que anunciasse 
>>>>> sua partida do Rio de Janeiro. Qual era a lógica que guiou a intuição 
>>>>> política nesse caso? Houve uma lógica nisso?
>>>>> 
>>>>> Por isso é que questões em lógica não se limitam à parte técnica. Não 
>>>>> existe a técnica sem a indispensável reflexão filosófica. É no bojo dela 
>>>>> que os problemas se formulam. Obviamente, admitimos que ad soluções 
>>>>> quando nos chegam podem estar fora da caixa, mas neste caso é outrossim 
>>>>> necessário ter ciência de que a reflexão se deslocou para outros termos. 
>>>>> Só com a reflexão clara entendemos direito o que significam os problemas 
>>>>> e as soluções propostas.
>>>>> 
>>>>> Most problems of teaching are not problems of growth but helping 
>>>>> cultivate growth. As far as I know, and this is only from personal 
>>>>> experience in teaching, I think about ninety percent of the problem in 
>>>>> teaching, or maybe ninety-eight percent, is just to help the students get 
>>>>> interested. 
>>>>> Noam Chomsky 
>>>>> 
>>>>>>> On 24 Mar 2020, at 16:48, Rodrigo Freire <[email protected]> wrote:
>>>>>>> 
>>>>>> 
>>>>>> Ao contrário, discordo do raciocínio do rábula. O rábula raciocina em um 
>>>>>> sistema que usa o raciocínio do rábula (o próprio sistema, portanto) na 
>>>>>> linguagem objeto. Esse sistema é contraditório, dele qualquer coisa se 
>>>>>> segue. Não se pode usar esse sistema.
>>>>>> 
>>>>>>> On Tue, Mar 24, 2020 at 4:08 PM Andrea Loparic <[email protected]> 
>>>>>>> wrote:
>>>>>>> Bem o que você está dizendo é que o probema tradicional é um 
>>>>>>> falso problema, ou seja, que a sentença não tem modelo. Você 
>>>>>>> concorda então com o rábula! E seria contraditado na terça
>>>>>>> feira, quando fosse surpreendido pela chegada do carrasco 
>>>>>>> pra te buscar as 5:50 !
>>>>>>> 
>>>>>>>         Livre de vírus. www.avast.com.
>>>>>>> 
>>>>>>>> Em ter., 24 de mar. de 2020 às 15:48, Rodrigo Freire 
>>>>>>>> <[email protected]> escreveu:
>>>>>>>> Oi Andrea,
>>>>>>>> 
>>>>>>>> Sim, meu ponto é que a teoria epistêmica resultante não é confiável 
>>>>>>>> (se formalizada será contraditória). Por isso sugiro que "não saberá 
>>>>>>>> de véspera" não deve ser interpretada como uma nova informação e 
>>>>>>>> internalizada através de uma linguagem epistêmica, mas apenas como a 
>>>>>>>> metainformação "sem mais informações". O problema se dissolve se 
>>>>>>>> interpretado desse modo. 
>>>>>>>> 
>>>>>>>> Abraço
>>>>>>>> Rodrigo 
>>>>>>>> 
>>>>>>>> 
>>>>>>>> 
>>>>>>>> 
>>>>>>>>> On Tue, Mar 24, 2020 at 3:39 PM Andrea Loparic <[email protected]> 
>>>>>>>>> wrote:
>>>>>>>>> Oi Rodrigo,
>>>>>>>>> 
>>>>>>>>> Assim formulado, o problema é outro. O problema tradicional é uma 
>>>>>>>>> questão
>>>>>>>>> de lógica epistêmica. O não poder saber de véspera é parte da sentença
>>>>>>>>> do problema tradicional. Eu não estou nesse momento podendo pegar meu
>>>>>>>>> exemplar do "The ways of Paradox" do Quine, onde ele expõe o problema 
>>>>>>>>> e
>>>>>>>>> a solução que ele dá; se você ou algum colega tiver à mão esse livro, 
>>>>>>>>> peço 
>>>>>>>>> que copie aqui a formulação que lá aparece.
>>>>>>>>> Abraços,
>>>>>>>>> Andréa 
>>>>>>>>> 
>>>>>>>>>       Livre de vírus. www.avast.com.
>>>>>>>>> 
>>>>>>>>>> Em ter., 24 de mar. de 2020 às 11:15, Rodrigo Freire 
>>>>>>>>>> <[email protected]> escreveu:
>>>>>>>>>> Olá Andrea. A formulação da prova surpresa é mais familiar para mim. 
>>>>>>>>>> 
>>>>>>>>>> A sentença poderia ser reformulada com o axioma: 
>>>>>>>>>> 
>>>>>>>>>> *Você será enforcado na segunda ou na terça ou na quarta ou na 
>>>>>>>>>> quinta ou na sexta.*
>>>>>>>>>> 
>>>>>>>>>> Essa é a única informação da sentença. O resto tem o efeito de "sem 
>>>>>>>>>> mais informações" e é melhor entendida como uma frase da 
>>>>>>>>>> metalinguagem (sobre o sistema de informações, não como uma 
>>>>>>>>>> informação adicional). Uma incorporação do "sem mais informações" 
>>>>>>>>>> como uma informação positiva não gera um sistema confiável.
>>>>>>>>>> 
>>>>>>>>>> A interpretação que o rábula faz da sua sentença de morte incorpora 
>>>>>>>>>> em seu sistema de justificação a parte prescreve o que ele não 
>>>>>>>>>> saberá. Ou seja, ele interpreta, com ajuda da má formulação da 
>>>>>>>>>> sentença, uma ausência de informação como informação positiva.
>>>>>>>>>> Esse movimento incorpora na lógica do rábula uma modalidade 
>>>>>>>>>> metalinguística. O sistema resultante de justificação do rábula é 
>>>>>>>>>> baseado na própria noção de justificação que o sistema tenta 
>>>>>>>>>> capturar. Esse é um tipo de planificação da linguagem/metalinguagem 
>>>>>>>>>> é problemática e não gera um sistema dedutivo confiável. De qualquer 
>>>>>>>>>> modo, uma formalização simples desse sistema em logica modal resulta 
>>>>>>>>>> inconsistente.
>>>>>>>>>> 
>>>>>>>>>> É assim que vejo o problema.
>>>>>>>>>> 
>>>>>>>>>> Abraço
>>>>>>>>>> Rodrigo
>>>>>>>>>> 
>>>>>>>>>> 
>>>>>>>>>> 
>>>>>>>>>> 
>>>>>>>>>> 
>>>>>>>>>> 
>>>>>>>>>>> On Mon, Mar 23, 2020 at 4:26 PM Andrea Loparic <[email protected]> 
>>>>>>>>>>> wrote:
>>>>>>>>>>> Que tal nos divertirmos com probleminhas interessantes nesse tempo 
>>>>>>>>>>> de quarentena? Por exemplo, quem de vocês já passou horas quebrando 
>>>>>>>>>>> a cuca com o chamado"paradoxo do enforcado"?  E quem acha que 
>>>>>>>>>>> chegou a uma solução do mesmo?
>>>>>>>>>>> Para quem não conhece ou não se lembra, lá vai o enunciado (à minha 
>>>>>>>>>>> moda):
>>>>>>>>>>> ====================================================================
>>>>>>>>>>>      Num reino distante, um rábula que ousara chamar o rei de 
>>>>>>>>>>> "infame"    
>>>>>>>>>>>      recebeu do rei a seguinte sentença condenatória:
>>>>>>>>>>> 
>>>>>>>>>>>           "Você será enforcado às 6 da manhã de um dia, entre 
>>>>>>>>>>> segunda e 
>>>>>>>>>>>           sábado da próximo semana,  mas só saberá qual deles às 
>>>>>>>>>>> 5:50 do 
>>>>>>>>>>>           próprio dia. quando o carrasco virá buscá-lo para a 
>>>>>>>>>>> execução."
>>>>>>>>>>> 
>>>>>>>>>>>      O rábula então pensou com seus botões:
>>>>>>>>>>> 
>>>>>>>>>>>           "Essa sentença não pode ser integralmente cumprida! Pois 
>>>>>>>>>>> sendo o  
>>>>>>>>>>>           sábado o último dia da próxima semana, ele está excluido, 
>>>>>>>>>>> uma vez 
>>>>>>>>>>>           que como o carrasco não tivesse aparecido na sexta feira 
>>>>>>>>>>> as 5:50,    
>>>>>>>>>>>           a partir desse momento eu ia ficar sabendo que seria 
>>>>>>>>>>> executado no
>>>>>>>>>>>           dia seguinte. Mas, como o sábado fica excluido, o mesmo 
>>>>>>>>>>> raciocínio
>>>>>>>>>>>           vale para a sexta, que fica sendo o último dia, assim na 
>>>>>>>>>>> quinta às  
>>>>>>>>>>>           5:50, eu já ia ficar sabendo.  E assim por diante, 
>>>>>>>>>>> podemos ir 
>>>>>>>>>>>           eliminando cada um dos dias da mesma forma, portanto a  
>>>>>>>>>>> sentença 
>>>>>>>>>>>           não poderá ser integralmente cumprida.  Ora, pelo 
>>>>>>>>>>> paragrafo único 
>>>>>>>>>>>           do artigo sexto do nosso Código Penal,  uma sentença que 
>>>>>>>>>>> não pode
>>>>>>>>>>>           ser  literalmente cumprida é nula de direito. Assim, 
>>>>>>>>>>> posso ficar 
>>>>>>>>>>>           tranquilo que não vou ser executado. "
>>>>>>>>>>> 
>>>>>>>>>>>      E assim ficou o rábula até as 5:50 da terça feira, quando o 
>>>>>>>>>>> carrasco apareceu para conduzi-lo à forca.  
>>>>>>>>>>> ==================================================================
>>>>>>>>>>> 
>>>>>>>>>>> Aguardo comentários tranquilos e intranquilos!!!
>>>>>>>>>>> Beijos (virtuais, é claro!)
>>>>>>>>>>> 
>>>>>>>>>>> Andréa (Antes confinada que só finada)
>>>>>>>>>>>    
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