Muito legal, Rodrigo!
Eu estou sem poder hoje, mas amanã vou sentar e seguir
passo a passo sua dedução.
Valeu!!


Em ter., 24 de mar. de 2020 às 20:13, Antonio Marmo <[email protected]>
escreveu:

> Caro Rodrigo,
>
> Obrigado pela sua resposta.
> Entendi agora qual é o caminho que você está vendo.
>
> Como há mais pessoas lendo essa discussão,  se me permite, vou apenas
> dizer algo sobre a literatura: esse problema do enforcado apareceu,
> conforme já disse a professora Andreia, num livro de Quine, cujo título é
> “Ways of Paradox”. No primeiro capítulo desse livro, Quine faz uma
> exposição da distinção entre falácia e paradoxo. No segundo capítulo,
> páginas 21 a 23, ele aborda esse problema dando a entender que não é um
> paradoxo de verdade, mas apenas um caso de um sujeito que raciocinou errado
> sobre uma proposição. Vale a pena ler o livro só por esses dois capítulos.
>
>
> On 24 Mar 2020, at 19:35, Rodrigo Freire <[email protected]> wrote:
>
> 
> Não é a lógica (modal) que é inconsistente, é a teoria modal em que o
> rábula raciocina. Vamos analisar esse raciocínio para tentar esclarecer.
>
> Seja K o operador de conhecimento de véspera, ~ o operador de negação, p1
> a proposição que diz que o enforcamento será na segunda, ..., p5 a
> proposição que diz que o enforcamento será na sexta.
>
> O rábula admite como axiomas
>
> A: (p1 e ~K(p1)) ou ... ou (p5 e ~K(p5)). [a interpretação dele da
> sentença]
>
>
> B1: p1 implica ~p2 e ... e ~p5
>  .
>  .
>  .
> B5: p5 implica ~p1 e ... e ~p4
>
> C: p5 implica K(p5)
>
> D: K(~p5) implica (p4 implica K(p4))
>
> E: (K(~p5) e K(~p4)) implica (p3 implica K(p3))
>
> F: (K(~p5) e K(~p4) e K(~p3)) implica (p2 implica K(p2))
>
> G: (K(~p5) e K(~p4) e K(~p3) e K(~p2)) implica (p1 implica K(p1))
>
> Agora o raciocínio:
>
> - A partir de C, de B5 e de A, conclui-se ~p5. Da necessitação, que o
> rábula assume pois o que ele deduz ele considera como conhecimento de
> véspera, K(~p5).
>
> - A partir de K(~p5), de B4, de D e de A, conclui-se ~p4.  Da
> necessitação, que o rábula assume pois o que ele deduz ele considera como
> conhecimento de véspera, K(~p4).
>
> - A partir de K(~p5), K(~p4), de B3, de E e de A, conclui-se ~p3.  Da
> necessitação, que o rábula assume pois o que ele deduz ele considera como
> conhecimento de véspera, K(~p3).
>
> - A partir de K(~p5), K(~p4), K(~p3), de B2, de F e de A, conclui-se ~p2.
> Da necessitação, que o rábula assume pois o que ele deduz ele considera
> como conhecimento de véspera, K(~p2).
>
> - A partir de  K(~p5), K(~p4), K(~p3), K(~p2), de B1, de G e de A,
> conclui-se ~p1.
>
> - A partir de  ~p5, ~p4, ~p3, ~p2, ~p1 e de A, conclui-se bottom.
>
> Abraço
>
>
>
>
> On Tue, Mar 24, 2020 at 6:54 PM Andrea Loparic <[email protected]> wrote:
>
>> Ah, tá. Eu não tinha entendido sua primeira msg.
>> Também acho que o furo do rábula tem a ver com "saber" e
>> que já a eliminação do último dia não se sustenta, ou seja, o
>> "se eu fosse morrer no sábado, eu saberia na sexta que
>> ia morrer no sábado" é falso e ele não poderia impugnar
>> a sentença na sexta dizendo algo como "eu não vou morrer
>> amanhã pois eu estou sabendo hoje que vocês vão me matar
>> amanhã"...
>>
>>
>> Em ter., 24 de mar. de 2020 às 18:27, Rodrigo Freire <
>> [email protected]> escreveu:
>>
>>> A sentença do rei é mais que sustentável, ela de fato ocorre, não é?
>>> O raciocínio do rábula não é sustentável, como não são alguns
>>> raciocínios que contém a noção metalinguística de "verdade" na linguagem
>>> objeto. Ele poderia, por exemplo, dizer ao rei: "se o que estou a dizer é
>>> verdade, então sou inocente". O rei teria que concluir que essa frase é
>>> verdadeira, portanto que o rábula é inocente. É essa analogia que faço.
>>> No caso em questão, o raciocínio contém a noção metalinguística de
>>> "saber" na linguagem objeto.
>>> Meu ponto é que isso gera um sistema inconsistente, como a inclusão da
>>> noção metalinguística de "verdade" na linguagem objeto.
>>>
>>>
>>>
>>>
>>> On Tue, Mar 24, 2020 at 6:14 PM Andrea Loparic <[email protected]>
>>> wrote:
>>>
>>>> Então não entendi sua posição antes.  Deixe ver agora:
>>>> Na sua opinião, a sentença do rei é sustentável e
>>>> é o raciocínio do rábula que não é?
>>>> E você estava mostrando por que a argumentação do
>>>> rábula está furada, é isso?
>>>>
>>>>
>>>> <https://www.avast.com/sig-email?utm_medium=email&utm_source=link&utm_campaign=sig-email&utm_content=webmail>
>>>>  Livre
>>>> de vírus. www.avast.com
>>>> <https://www.avast.com/sig-email?utm_medium=email&utm_source=link&utm_campaign=sig-email&utm_content=webmail>.
>>>>
>>>> <#m_-8144068828994759554_m_5402874853436214975_m_82474335181810530_m_-3697823811162448272_DAB4FAD8-2DD7-40BB-A1B8-4E2AA1F9FDF2>
>>>>
>>>> Em ter., 24 de mar. de 2020 às 17:50, Antonio Marmo <
>>>> [email protected]> escreveu:
>>>>
>>>>> Pois é preciso dizer antes em quais termos se coloca o problema para
>>>>> pensar a solução. Ainda assim, isto não garante que alguém não o resolva
>>>>> pensando “fora da caixa”.
>>>>>
>>>>> A lenda do nó górdio é um exemplo óbvio. Alexandre o Grande teria sido
>>>>> o único que resolveu o problema passando a espada, ao passo que todos 
>>>>> antes
>>>>> dele pressupuseram que a proposta era desfazer o nó sem partir a corda.
>>>>>
>>>>> Voltando ao problema específico: as Cortes de Lisboa determinam que
>>>>> El-rei D. João VI deve voltar à Lisboa. O monarca responde: “um dia eu
>>>>> volto, hoje não.” Como vamos analisar o problema? Usando alguma lógica
>>>>> epistêmica conhecida, como T ou D? Usando da simples lógica proposicional
>>>>> clássica? Ou vamos observar como as pessoas intuitivamente reagem ao
>>>>> problema?
>>>>>
>>>>> No caso do exemplo histórico, os deputados portugueses não se
>>>>> surpreenderam com o retorno de D. João VI quando aconteceu. Na verdade, ao
>>>>> ouvirem dele que regressaria algum dia, mas sem uma data marcada,
>>>>> entenderam que ele não regressaria e o pressionaram até que anunciasse sua
>>>>> partida do Rio de Janeiro. Qual era a lógica que guiou a intuição política
>>>>> nesse caso? Houve uma lógica nisso?
>>>>>
>>>>> Por isso é que questões em lógica não se limitam à parte técnica. Não
>>>>> existe a técnica sem a indispensável reflexão filosófica. É no bojo dela
>>>>> que os problemas se formulam. Obviamente, admitimos que ad soluções quando
>>>>> nos chegam podem estar fora da caixa, mas neste caso é outrossim 
>>>>> necessário
>>>>> ter ciência de que a reflexão se deslocou para outros termos. Só com a
>>>>> reflexão clara entendemos direito o que significam os problemas e as
>>>>> soluções propostas.
>>>>>
>>>>> *Most problems of teaching are not problems of growth but helping
>>>>> cultivate growth. As far as I know, and this is only from personal
>>>>> experience in teaching, I think about ninety percent of the problem in
>>>>> teaching, or maybe ninety-eight percent, is just to help the students get
>>>>> interested. *
>>>>> Noam Chomsky
>>>>>
>>>>> On 24 Mar 2020, at 16:48, Rodrigo Freire <[email protected]> wrote:
>>>>>
>>>>> 
>>>>> Ao contrário, discordo do raciocínio do rábula. O rábula raciocina em
>>>>> um sistema que usa o raciocínio do rábula (o próprio sistema, portanto) na
>>>>> linguagem objeto. Esse sistema é contraditório, dele qualquer coisa se
>>>>> segue. Não se pode usar esse sistema.
>>>>>
>>>>> On Tue, Mar 24, 2020 at 4:08 PM Andrea Loparic <[email protected]>
>>>>> wrote:
>>>>>
>>>>>> Bem o que você está dizendo é que o probema tradicional é um
>>>>>> falso problema, ou seja, que a sentença não tem modelo. Você
>>>>>> concorda então com o rábula! E seria contraditado na terça
>>>>>> feira, quando fosse surpreendido pela chegada do carrasco
>>>>>> pra te buscar as 5:50 !
>>>>>>
>>>>>>
>>>>>> <https://www.avast.com/sig-email?utm_medium=email&utm_source=link&utm_campaign=sig-email&utm_content=webmail>
>>>>>>  Livre
>>>>>> de vírus. www.avast.com
>>>>>> <https://www.avast.com/sig-email?utm_medium=email&utm_source=link&utm_campaign=sig-email&utm_content=webmail>.
>>>>>>
>>>>>> <#m_-8144068828994759554_m_5402874853436214975_m_82474335181810530_m_-3697823811162448272_m_-6961251563994469305_m_-5617508477340950558_DAB4FAD8-2DD7-40BB-A1B8-4E2AA1F9FDF2>
>>>>>>
>>>>>> Em ter., 24 de mar. de 2020 às 15:48, Rodrigo Freire <
>>>>>> [email protected]> escreveu:
>>>>>>
>>>>>>> Oi Andrea,
>>>>>>>
>>>>>>> Sim, meu ponto é que a teoria epistêmica resultante não é confiável
>>>>>>> (se formalizada será contraditória). Por isso sugiro que "não saberá de
>>>>>>> véspera" não deve ser interpretada como uma nova informação e 
>>>>>>> internalizada
>>>>>>> através de uma linguagem epistêmica, mas apenas como a metainformação 
>>>>>>> "sem
>>>>>>> mais informações". O problema se dissolve se interpretado desse modo.
>>>>>>>
>>>>>>> Abraço
>>>>>>> Rodrigo
>>>>>>>
>>>>>>>
>>>>>>>
>>>>>>>
>>>>>>> On Tue, Mar 24, 2020 at 3:39 PM Andrea Loparic <[email protected]>
>>>>>>> wrote:
>>>>>>>
>>>>>>>> Oi Rodrigo,
>>>>>>>>
>>>>>>>> Assim formulado, o problema é outro. O problema tradicional é uma
>>>>>>>> questão
>>>>>>>> de lógica epistêmica. O não poder saber de véspera é parte da
>>>>>>>> sentença
>>>>>>>> do problema tradicional. Eu não estou nesse momento podendo pegar
>>>>>>>> meu
>>>>>>>> exemplar do "The ways of Paradox" do Quine, onde ele expõe o
>>>>>>>> problema e
>>>>>>>> a solução que ele dá; se você ou algum colega tiver à mão esse
>>>>>>>> livro, peço
>>>>>>>> que copie aqui a formulação que lá aparece.
>>>>>>>> Abraços,
>>>>>>>> Andréa
>>>>>>>>
>>>>>>>>
>>>>>>>> <https://www.avast.com/sig-email?utm_medium=email&utm_source=link&utm_campaign=sig-email&utm_content=webmail>
>>>>>>>>  Livre
>>>>>>>> de vírus. www.avast.com
>>>>>>>> <https://www.avast.com/sig-email?utm_medium=email&utm_source=link&utm_campaign=sig-email&utm_content=webmail>.
>>>>>>>>
>>>>>>>> <#m_-8144068828994759554_m_5402874853436214975_m_82474335181810530_m_-3697823811162448272_m_-6961251563994469305_m_-5617508477340950558_m_-8172675235174311213_m_4031521167101064759_DAB4FAD8-2DD7-40BB-A1B8-4E2AA1F9FDF2>
>>>>>>>>
>>>>>>>> Em ter., 24 de mar. de 2020 às 11:15, Rodrigo Freire <
>>>>>>>> [email protected]> escreveu:
>>>>>>>>
>>>>>>>>> Olá Andrea. A formulação da prova surpresa é mais familiar para
>>>>>>>>> mim.
>>>>>>>>>
>>>>>>>>> A sentença poderia ser reformulada com o axioma:
>>>>>>>>>
>>>>>>>>> *Você será enforcado na segunda ou na terça ou na quarta ou na
>>>>>>>>> quinta ou na sexta.*
>>>>>>>>>
>>>>>>>>> Essa é a única informação da sentença. O resto tem o efeito de
>>>>>>>>> "sem mais informações" e é melhor entendida como uma frase da 
>>>>>>>>> metalinguagem
>>>>>>>>> (sobre o sistema de informações, não como uma informação adicional). 
>>>>>>>>> Uma
>>>>>>>>> incorporação do "sem mais informações" como uma informação positiva 
>>>>>>>>> não
>>>>>>>>> gera um sistema confiável.
>>>>>>>>>
>>>>>>>>> A interpretação que o rábula faz da sua sentença de morte
>>>>>>>>> incorpora em seu sistema de justificação a parte prescreve o que ele 
>>>>>>>>> não
>>>>>>>>> saberá. Ou seja, ele interpreta, com ajuda da má formulação da 
>>>>>>>>> sentença,
>>>>>>>>> uma ausência de informação como informação positiva.
>>>>>>>>> Esse movimento incorpora na lógica do rábula uma modalidade
>>>>>>>>> metalinguística. O sistema resultante de justificação do rábula é 
>>>>>>>>> baseado
>>>>>>>>> na própria noção de justificação que o sistema tenta capturar. Esse é 
>>>>>>>>> um
>>>>>>>>> tipo de planificação da linguagem/metalinguagem é problemática e não 
>>>>>>>>> gera
>>>>>>>>> um sistema dedutivo confiável. De qualquer modo, uma formalização 
>>>>>>>>> simples
>>>>>>>>> desse sistema em logica modal resulta inconsistente.
>>>>>>>>>
>>>>>>>>> É assim que vejo o problema.
>>>>>>>>>
>>>>>>>>> Abraço
>>>>>>>>> Rodrigo
>>>>>>>>>
>>>>>>>>>
>>>>>>>>>
>>>>>>>>>
>>>>>>>>>
>>>>>>>>>
>>>>>>>>> On Mon, Mar 23, 2020 at 4:26 PM Andrea Loparic <[email protected]>
>>>>>>>>> wrote:
>>>>>>>>>
>>>>>>>>>> Que tal nos divertirmos com probleminhas interessantes nesse
>>>>>>>>>> tempo de quarentena? Por exemplo, quem de vocês já passou horas 
>>>>>>>>>> quebrando a
>>>>>>>>>> cuca com o chamado"paradoxo do enforcado"?  E quem acha que chegou a 
>>>>>>>>>> uma
>>>>>>>>>> solução do mesmo?
>>>>>>>>>> Para quem não conhece ou não se lembra, lá vai o enunciado (à
>>>>>>>>>> minha moda):
>>>>>>>>>>
>>>>>>>>>> ====================================================================
>>>>>>>>>>      Num reino distante, um rábula que ousara chamar o rei de
>>>>>>>>>> "infame"
>>>>>>>>>>      recebeu do rei a seguinte sentença condenatória:
>>>>>>>>>>
>>>>>>>>>>           "Você será enforcado às 6 da manhã de um dia, entre
>>>>>>>>>> segunda e
>>>>>>>>>>           sábado da próximo semana,  mas só saberá qual deles às
>>>>>>>>>> 5:50 do
>>>>>>>>>>           próprio dia. quando o carrasco virá buscá-lo para a
>>>>>>>>>> execução."
>>>>>>>>>>
>>>>>>>>>>      O rábula então pensou com seus botões:
>>>>>>>>>>
>>>>>>>>>>           "Essa sentença não pode ser integralmente cumprida!
>>>>>>>>>> Pois sendo o
>>>>>>>>>>           sábado o último dia da próxima semana, ele está
>>>>>>>>>> excluido, uma vez
>>>>>>>>>>           que como o carrasco não tivesse aparecido na sexta
>>>>>>>>>> feira as 5:50,
>>>>>>>>>>           a partir desse momento eu ia ficar sabendo que seria
>>>>>>>>>> executado no
>>>>>>>>>>           dia seguinte. Mas, como o sábado fica excluido, o mesmo
>>>>>>>>>> raciocínio
>>>>>>>>>>           vale para a sexta, que fica sendo o último dia, assim
>>>>>>>>>> na quinta às
>>>>>>>>>>           5:50, eu já ia ficar sabendo.  E assim por diante,
>>>>>>>>>> podemos ir
>>>>>>>>>>           eliminando cada um dos dias da mesma forma, portanto
>>>>>>>>>> a  sentença
>>>>>>>>>>           não poderá ser integralmente cumprida.  Ora, pelo
>>>>>>>>>> paragrafo único
>>>>>>>>>>           do artigo sexto do nosso Código Penal,  uma sentença
>>>>>>>>>> que não pode
>>>>>>>>>>           ser  literalmente cumprida é nula de direito. Assim,
>>>>>>>>>> posso ficar
>>>>>>>>>>           tranquilo que não vou ser executado. "
>>>>>>>>>>
>>>>>>>>>>      E assim ficou o rábula até as 5:50 da terça feira, quando o
>>>>>>>>>> carrasco apareceu para conduzi-lo à forca.
>>>>>>>>>> ==================================================================
>>>>>>>>>>
>>>>>>>>>> Aguardo comentários tranquilos e intranquilos!!!
>>>>>>>>>> Beijos (virtuais, é claro!)
>>>>>>>>>>
>>>>>>>>>> Andréa (Antes confinada que só finada)
>>>>>>>>>>
>>>>>>>>>>
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