Não é a lógica (modal) que é inconsistente, é a teoria modal em que o
rábula raciocina. Vamos analisar esse raciocínio para tentar esclarecer.

Seja K o operador de conhecimento de véspera, ~ o operador de negação, p1 a
proposição que diz que o enforcamento será na segunda, ..., p5 a proposição
que diz que o enforcamento será na sexta.

O rábula admite como axiomas

A: (p1 e ~K(p1)) ou ... ou (p5 e ~K(p5)). [a interpretação dele da sentença]


B1: p1 implica ~p2 e ... e ~p5
 .
 .
 .
B5: p5 implica ~p1 e ... e ~p4

C: p5 implica K(p5)

D: K(~p5) implica (p4 implica K(p4))

E: (K(~p5) e K(~p4)) implica (p3 implica K(p3))

F: (K(~p5) e K(~p4) e K(~p3)) implica (p2 implica K(p2))

G: (K(~p5) e K(~p4) e K(~p3) e K(~p2)) implica (p1 implica K(p1))

Agora o raciocínio:

- A partir de C, de B5 e de A, conclui-se ~p5. Da necessitação, que o
rábula assume pois o que ele deduz ele considera como conhecimento de
véspera, K(~p5).

- A partir de K(~p5), de B4, de D e de A, conclui-se ~p4.  Da necessitação,
que o rábula assume pois o que ele deduz ele considera como conhecimento de
véspera, K(~p4).

- A partir de K(~p5), K(~p4), de B3, de E e de A, conclui-se ~p3.  Da
necessitação, que o rábula assume pois o que ele deduz ele considera como
conhecimento de véspera, K(~p3).

- A partir de K(~p5), K(~p4), K(~p3), de B2, de F e de A, conclui-se ~p2.
Da necessitação, que o rábula assume pois o que ele deduz ele considera
como conhecimento de véspera, K(~p2).

- A partir de  K(~p5), K(~p4), K(~p3), K(~p2), de B1, de G e de A,
conclui-se ~p1.

- A partir de  ~p5, ~p4, ~p3, ~p2, ~p1 e de A, conclui-se bottom.

Abraço




On Tue, Mar 24, 2020 at 6:54 PM Andrea Loparic <[email protected]> wrote:

> Ah, tá. Eu não tinha entendido sua primeira msg.
> Também acho que o furo do rábula tem a ver com "saber" e
> que já a eliminação do último dia não se sustenta, ou seja, o
> "se eu fosse morrer no sábado, eu saberia na sexta que
> ia morrer no sábado" é falso e ele não poderia impugnar
> a sentença na sexta dizendo algo como "eu não vou morrer
> amanhã pois eu estou sabendo hoje que vocês vão me matar
> amanhã"...
>
>
> Em ter., 24 de mar. de 2020 às 18:27, Rodrigo Freire <[email protected]>
> escreveu:
>
>> A sentença do rei é mais que sustentável, ela de fato ocorre, não é?
>> O raciocínio do rábula não é sustentável, como não são alguns raciocínios
>> que contém a noção metalinguística de "verdade" na linguagem objeto. Ele
>> poderia, por exemplo, dizer ao rei: "se o que estou a dizer é verdade,
>> então sou inocente". O rei teria que concluir que essa frase é verdadeira,
>> portanto que o rábula é inocente. É essa analogia que faço.
>> No caso em questão, o raciocínio contém a noção metalinguística de
>> "saber" na linguagem objeto.
>> Meu ponto é que isso gera um sistema inconsistente, como a inclusão da
>> noção metalinguística de "verdade" na linguagem objeto.
>>
>>
>>
>>
>> On Tue, Mar 24, 2020 at 6:14 PM Andrea Loparic <[email protected]>
>> wrote:
>>
>>> Então não entendi sua posição antes.  Deixe ver agora:
>>> Na sua opinião, a sentença do rei é sustentável e
>>> é o raciocínio do rábula que não é?
>>> E você estava mostrando por que a argumentação do
>>> rábula está furada, é isso?
>>>
>>>
>>> <https://www.avast.com/sig-email?utm_medium=email&utm_source=link&utm_campaign=sig-email&utm_content=webmail>
>>>  Livre
>>> de vírus. www.avast.com
>>> <https://www.avast.com/sig-email?utm_medium=email&utm_source=link&utm_campaign=sig-email&utm_content=webmail>.
>>>
>>> <#m_5402874853436214975_m_82474335181810530_m_-3697823811162448272_DAB4FAD8-2DD7-40BB-A1B8-4E2AA1F9FDF2>
>>>
>>> Em ter., 24 de mar. de 2020 às 17:50, Antonio Marmo <
>>> [email protected]> escreveu:
>>>
>>>> Pois é preciso dizer antes em quais termos se coloca o problema para
>>>> pensar a solução. Ainda assim, isto não garante que alguém não o resolva
>>>> pensando “fora da caixa”.
>>>>
>>>> A lenda do nó górdio é um exemplo óbvio. Alexandre o Grande teria sido
>>>> o único que resolveu o problema passando a espada, ao passo que todos antes
>>>> dele pressupuseram que a proposta era desfazer o nó sem partir a corda.
>>>>
>>>> Voltando ao problema específico: as Cortes de Lisboa determinam que
>>>> El-rei D. João VI deve voltar à Lisboa. O monarca responde: “um dia eu
>>>> volto, hoje não.” Como vamos analisar o problema? Usando alguma lógica
>>>> epistêmica conhecida, como T ou D? Usando da simples lógica proposicional
>>>> clássica? Ou vamos observar como as pessoas intuitivamente reagem ao
>>>> problema?
>>>>
>>>> No caso do exemplo histórico, os deputados portugueses não se
>>>> surpreenderam com o retorno de D. João VI quando aconteceu. Na verdade, ao
>>>> ouvirem dele que regressaria algum dia, mas sem uma data marcada,
>>>> entenderam que ele não regressaria e o pressionaram até que anunciasse sua
>>>> partida do Rio de Janeiro. Qual era a lógica que guiou a intuição política
>>>> nesse caso? Houve uma lógica nisso?
>>>>
>>>> Por isso é que questões em lógica não se limitam à parte técnica. Não
>>>> existe a técnica sem a indispensável reflexão filosófica. É no bojo dela
>>>> que os problemas se formulam. Obviamente, admitimos que ad soluções quando
>>>> nos chegam podem estar fora da caixa, mas neste caso é outrossim necessário
>>>> ter ciência de que a reflexão se deslocou para outros termos. Só com a
>>>> reflexão clara entendemos direito o que significam os problemas e as
>>>> soluções propostas.
>>>>
>>>> *Most problems of teaching are not problems of growth but helping
>>>> cultivate growth. As far as I know, and this is only from personal
>>>> experience in teaching, I think about ninety percent of the problem in
>>>> teaching, or maybe ninety-eight percent, is just to help the students get
>>>> interested. *
>>>> Noam Chomsky
>>>>
>>>> On 24 Mar 2020, at 16:48, Rodrigo Freire <[email protected]> wrote:
>>>>
>>>> 
>>>> Ao contrário, discordo do raciocínio do rábula. O rábula raciocina em
>>>> um sistema que usa o raciocínio do rábula (o próprio sistema, portanto) na
>>>> linguagem objeto. Esse sistema é contraditório, dele qualquer coisa se
>>>> segue. Não se pode usar esse sistema.
>>>>
>>>> On Tue, Mar 24, 2020 at 4:08 PM Andrea Loparic <[email protected]>
>>>> wrote:
>>>>
>>>>> Bem o que você está dizendo é que o probema tradicional é um
>>>>> falso problema, ou seja, que a sentença não tem modelo. Você
>>>>> concorda então com o rábula! E seria contraditado na terça
>>>>> feira, quando fosse surpreendido pela chegada do carrasco
>>>>> pra te buscar as 5:50 !
>>>>>
>>>>>
>>>>> <https://www.avast.com/sig-email?utm_medium=email&utm_source=link&utm_campaign=sig-email&utm_content=webmail>
>>>>>  Livre
>>>>> de vírus. www.avast.com
>>>>> <https://www.avast.com/sig-email?utm_medium=email&utm_source=link&utm_campaign=sig-email&utm_content=webmail>.
>>>>>
>>>>> <#m_5402874853436214975_m_82474335181810530_m_-3697823811162448272_m_-6961251563994469305_m_-5617508477340950558_DAB4FAD8-2DD7-40BB-A1B8-4E2AA1F9FDF2>
>>>>>
>>>>> Em ter., 24 de mar. de 2020 às 15:48, Rodrigo Freire <
>>>>> [email protected]> escreveu:
>>>>>
>>>>>> Oi Andrea,
>>>>>>
>>>>>> Sim, meu ponto é que a teoria epistêmica resultante não é confiável
>>>>>> (se formalizada será contraditória). Por isso sugiro que "não saberá de
>>>>>> véspera" não deve ser interpretada como uma nova informação e 
>>>>>> internalizada
>>>>>> através de uma linguagem epistêmica, mas apenas como a metainformação 
>>>>>> "sem
>>>>>> mais informações". O problema se dissolve se interpretado desse modo.
>>>>>>
>>>>>> Abraço
>>>>>> Rodrigo
>>>>>>
>>>>>>
>>>>>>
>>>>>>
>>>>>> On Tue, Mar 24, 2020 at 3:39 PM Andrea Loparic <[email protected]>
>>>>>> wrote:
>>>>>>
>>>>>>> Oi Rodrigo,
>>>>>>>
>>>>>>> Assim formulado, o problema é outro. O problema tradicional é uma
>>>>>>> questão
>>>>>>> de lógica epistêmica. O não poder saber de véspera é parte da
>>>>>>> sentença
>>>>>>> do problema tradicional. Eu não estou nesse momento podendo pegar meu
>>>>>>> exemplar do "The ways of Paradox" do Quine, onde ele expõe o
>>>>>>> problema e
>>>>>>> a solução que ele dá; se você ou algum colega tiver à mão esse
>>>>>>> livro, peço
>>>>>>> que copie aqui a formulação que lá aparece.
>>>>>>> Abraços,
>>>>>>> Andréa
>>>>>>>
>>>>>>>
>>>>>>> <https://www.avast.com/sig-email?utm_medium=email&utm_source=link&utm_campaign=sig-email&utm_content=webmail>
>>>>>>>  Livre
>>>>>>> de vírus. www.avast.com
>>>>>>> <https://www.avast.com/sig-email?utm_medium=email&utm_source=link&utm_campaign=sig-email&utm_content=webmail>.
>>>>>>>
>>>>>>> <#m_5402874853436214975_m_82474335181810530_m_-3697823811162448272_m_-6961251563994469305_m_-5617508477340950558_m_-8172675235174311213_m_4031521167101064759_DAB4FAD8-2DD7-40BB-A1B8-4E2AA1F9FDF2>
>>>>>>>
>>>>>>> Em ter., 24 de mar. de 2020 às 11:15, Rodrigo Freire <
>>>>>>> [email protected]> escreveu:
>>>>>>>
>>>>>>>> Olá Andrea. A formulação da prova surpresa é mais familiar para
>>>>>>>> mim.
>>>>>>>>
>>>>>>>> A sentença poderia ser reformulada com o axioma:
>>>>>>>>
>>>>>>>> *Você será enforcado na segunda ou na terça ou na quarta ou na
>>>>>>>> quinta ou na sexta.*
>>>>>>>>
>>>>>>>> Essa é a única informação da sentença. O resto tem o efeito de "sem
>>>>>>>> mais informações" e é melhor entendida como uma frase da metalinguagem
>>>>>>>> (sobre o sistema de informações, não como uma informação adicional). 
>>>>>>>> Uma
>>>>>>>> incorporação do "sem mais informações" como uma informação positiva não
>>>>>>>> gera um sistema confiável.
>>>>>>>>
>>>>>>>> A interpretação que o rábula faz da sua sentença de morte incorpora
>>>>>>>> em seu sistema de justificação a parte prescreve o que ele não saberá. 
>>>>>>>> Ou
>>>>>>>> seja, ele interpreta, com ajuda da má formulação da sentença, uma 
>>>>>>>> ausência
>>>>>>>> de informação como informação positiva.
>>>>>>>> Esse movimento incorpora na lógica do rábula uma modalidade
>>>>>>>> metalinguística. O sistema resultante de justificação do rábula é 
>>>>>>>> baseado
>>>>>>>> na própria noção de justificação que o sistema tenta capturar. Esse é 
>>>>>>>> um
>>>>>>>> tipo de planificação da linguagem/metalinguagem é problemática e não 
>>>>>>>> gera
>>>>>>>> um sistema dedutivo confiável. De qualquer modo, uma formalização 
>>>>>>>> simples
>>>>>>>> desse sistema em logica modal resulta inconsistente.
>>>>>>>>
>>>>>>>> É assim que vejo o problema.
>>>>>>>>
>>>>>>>> Abraço
>>>>>>>> Rodrigo
>>>>>>>>
>>>>>>>>
>>>>>>>>
>>>>>>>>
>>>>>>>>
>>>>>>>>
>>>>>>>> On Mon, Mar 23, 2020 at 4:26 PM Andrea Loparic <[email protected]>
>>>>>>>> wrote:
>>>>>>>>
>>>>>>>>> Que tal nos divertirmos com probleminhas interessantes nesse tempo
>>>>>>>>> de quarentena? Por exemplo, quem de vocês já passou horas quebrando a 
>>>>>>>>> cuca
>>>>>>>>> com o chamado"paradoxo do enforcado"?  E quem acha que chegou a uma 
>>>>>>>>> solução
>>>>>>>>> do mesmo?
>>>>>>>>> Para quem não conhece ou não se lembra, lá vai o enunciado (à
>>>>>>>>> minha moda):
>>>>>>>>>
>>>>>>>>> ====================================================================
>>>>>>>>>      Num reino distante, um rábula que ousara chamar o rei de
>>>>>>>>> "infame"
>>>>>>>>>      recebeu do rei a seguinte sentença condenatória:
>>>>>>>>>
>>>>>>>>>           "Você será enforcado às 6 da manhã de um dia, entre
>>>>>>>>> segunda e
>>>>>>>>>           sábado da próximo semana,  mas só saberá qual deles às
>>>>>>>>> 5:50 do
>>>>>>>>>           próprio dia. quando o carrasco virá buscá-lo para a
>>>>>>>>> execução."
>>>>>>>>>
>>>>>>>>>      O rábula então pensou com seus botões:
>>>>>>>>>
>>>>>>>>>           "Essa sentença não pode ser integralmente cumprida! Pois
>>>>>>>>> sendo o
>>>>>>>>>           sábado o último dia da próxima semana, ele está
>>>>>>>>> excluido, uma vez
>>>>>>>>>           que como o carrasco não tivesse aparecido na sexta feira
>>>>>>>>> as 5:50,
>>>>>>>>>           a partir desse momento eu ia ficar sabendo que seria
>>>>>>>>> executado no
>>>>>>>>>           dia seguinte. Mas, como o sábado fica excluido, o mesmo
>>>>>>>>> raciocínio
>>>>>>>>>           vale para a sexta, que fica sendo o último dia, assim na
>>>>>>>>> quinta às
>>>>>>>>>           5:50, eu já ia ficar sabendo.  E assim por diante,
>>>>>>>>> podemos ir
>>>>>>>>>           eliminando cada um dos dias da mesma forma, portanto
>>>>>>>>> a  sentença
>>>>>>>>>           não poderá ser integralmente cumprida.  Ora, pelo
>>>>>>>>> paragrafo único
>>>>>>>>>           do artigo sexto do nosso Código Penal,  uma sentença que
>>>>>>>>> não pode
>>>>>>>>>           ser  literalmente cumprida é nula de direito. Assim,
>>>>>>>>> posso ficar
>>>>>>>>>           tranquilo que não vou ser executado. "
>>>>>>>>>
>>>>>>>>>      E assim ficou o rábula até as 5:50 da terça feira, quando o
>>>>>>>>> carrasco apareceu para conduzi-lo à forca.
>>>>>>>>> ==================================================================
>>>>>>>>>
>>>>>>>>> Aguardo comentários tranquilos e intranquilos!!!
>>>>>>>>> Beijos (virtuais, é claro!)
>>>>>>>>>
>>>>>>>>> Andréa (Antes confinada que só finada)
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