A sentença do rei é mais que sustentável, ela de fato ocorre, não é?
O raciocínio do rábula não é sustentável, como não são alguns raciocínios
que contém a noção metalinguística de "verdade" na linguagem objeto. Ele
poderia, por exemplo, dizer ao rei: "se o que estou a dizer é verdade,
então sou inocente". O rei teria que concluir que essa frase é verdadeira,
portanto que o rábula é inocente. É essa analogia que faço.
No caso em questão, o raciocínio contém a noção metalinguística de "saber"
na linguagem objeto.
Meu ponto é que isso gera um sistema inconsistente, como a inclusão da
noção metalinguística de "verdade" na linguagem objeto.




On Tue, Mar 24, 2020 at 6:14 PM Andrea Loparic <[email protected]> wrote:

> Então não entendi sua posição antes.  Deixe ver agora:
> Na sua opinião, a sentença do rei é sustentável e
> é o raciocínio do rábula que não é?
> E você estava mostrando por que a argumentação do
> rábula está furada, é isso?
>
>
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>  Livre
> de vírus. www.avast.com
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> <#m_-3697823811162448272_DAB4FAD8-2DD7-40BB-A1B8-4E2AA1F9FDF2>
>
> Em ter., 24 de mar. de 2020 às 17:50, Antonio Marmo <[email protected]>
> escreveu:
>
>> Pois é preciso dizer antes em quais termos se coloca o problema para
>> pensar a solução. Ainda assim, isto não garante que alguém não o resolva
>> pensando “fora da caixa”.
>>
>> A lenda do nó górdio é um exemplo óbvio. Alexandre o Grande teria sido o
>> único que resolveu o problema passando a espada, ao passo que todos antes
>> dele pressupuseram que a proposta era desfazer o nó sem partir a corda.
>>
>> Voltando ao problema específico: as Cortes de Lisboa determinam que
>> El-rei D. João VI deve voltar à Lisboa. O monarca responde: “um dia eu
>> volto, hoje não.” Como vamos analisar o problema? Usando alguma lógica
>> epistêmica conhecida, como T ou D? Usando da simples lógica proposicional
>> clássica? Ou vamos observar como as pessoas intuitivamente reagem ao
>> problema?
>>
>> No caso do exemplo histórico, os deputados portugueses não se
>> surpreenderam com o retorno de D. João VI quando aconteceu. Na verdade, ao
>> ouvirem dele que regressaria algum dia, mas sem uma data marcada,
>> entenderam que ele não regressaria e o pressionaram até que anunciasse sua
>> partida do Rio de Janeiro. Qual era a lógica que guiou a intuição política
>> nesse caso? Houve uma lógica nisso?
>>
>> Por isso é que questões em lógica não se limitam à parte técnica. Não
>> existe a técnica sem a indispensável reflexão filosófica. É no bojo dela
>> que os problemas se formulam. Obviamente, admitimos que ad soluções quando
>> nos chegam podem estar fora da caixa, mas neste caso é outrossim necessário
>> ter ciência de que a reflexão se deslocou para outros termos. Só com a
>> reflexão clara entendemos direito o que significam os problemas e as
>> soluções propostas.
>>
>> *Most problems of teaching are not problems of growth but helping
>> cultivate growth. As far as I know, and this is only from personal
>> experience in teaching, I think about ninety percent of the problem in
>> teaching, or maybe ninety-eight percent, is just to help the students get
>> interested. *
>> Noam Chomsky
>>
>> On 24 Mar 2020, at 16:48, Rodrigo Freire <[email protected]> wrote:
>>
>> 
>> Ao contrário, discordo do raciocínio do rábula. O rábula raciocina em um
>> sistema que usa o raciocínio do rábula (o próprio sistema, portanto) na
>> linguagem objeto. Esse sistema é contraditório, dele qualquer coisa se
>> segue. Não se pode usar esse sistema.
>>
>> On Tue, Mar 24, 2020 at 4:08 PM Andrea Loparic <[email protected]>
>> wrote:
>>
>>> Bem o que você está dizendo é que o probema tradicional é um
>>> falso problema, ou seja, que a sentença não tem modelo. Você
>>> concorda então com o rábula! E seria contraditado na terça
>>> feira, quando fosse surpreendido pela chegada do carrasco
>>> pra te buscar as 5:50 !
>>>
>>>
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>>>  Livre
>>> de vírus. www.avast.com
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>>>
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>>>
>>> Em ter., 24 de mar. de 2020 às 15:48, Rodrigo Freire <
>>> [email protected]> escreveu:
>>>
>>>> Oi Andrea,
>>>>
>>>> Sim, meu ponto é que a teoria epistêmica resultante não é confiável (se
>>>> formalizada será contraditória). Por isso sugiro que "não saberá de
>>>> véspera" não deve ser interpretada como uma nova informação e internalizada
>>>> através de uma linguagem epistêmica, mas apenas como a metainformação "sem
>>>> mais informações". O problema se dissolve se interpretado desse modo.
>>>>
>>>> Abraço
>>>> Rodrigo
>>>>
>>>>
>>>>
>>>>
>>>> On Tue, Mar 24, 2020 at 3:39 PM Andrea Loparic <[email protected]>
>>>> wrote:
>>>>
>>>>> Oi Rodrigo,
>>>>>
>>>>> Assim formulado, o problema é outro. O problema tradicional é uma
>>>>> questão
>>>>> de lógica epistêmica. O não poder saber de véspera é parte da sentença
>>>>> do problema tradicional. Eu não estou nesse momento podendo pegar meu
>>>>> exemplar do "The ways of Paradox" do Quine, onde ele expõe o problema e
>>>>> a solução que ele dá; se você ou algum colega tiver à mão esse livro,
>>>>> peço
>>>>> que copie aqui a formulação que lá aparece.
>>>>> Abraços,
>>>>> Andréa
>>>>>
>>>>>
>>>>> <https://www.avast.com/sig-email?utm_medium=email&utm_source=link&utm_campaign=sig-email&utm_content=webmail>
>>>>>  Livre
>>>>> de vírus. www.avast.com
>>>>> <https://www.avast.com/sig-email?utm_medium=email&utm_source=link&utm_campaign=sig-email&utm_content=webmail>.
>>>>>
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>>>>>
>>>>> Em ter., 24 de mar. de 2020 às 11:15, Rodrigo Freire <
>>>>> [email protected]> escreveu:
>>>>>
>>>>>> Olá Andrea. A formulação da prova surpresa é mais familiar para mim.
>>>>>>
>>>>>> A sentença poderia ser reformulada com o axioma:
>>>>>>
>>>>>> *Você será enforcado na segunda ou na terça ou na quarta ou na quinta
>>>>>> ou na sexta.*
>>>>>>
>>>>>> Essa é a única informação da sentença. O resto tem o efeito de "sem
>>>>>> mais informações" e é melhor entendida como uma frase da metalinguagem
>>>>>> (sobre o sistema de informações, não como uma informação adicional). Uma
>>>>>> incorporação do "sem mais informações" como uma informação positiva não
>>>>>> gera um sistema confiável.
>>>>>>
>>>>>> A interpretação que o rábula faz da sua sentença de morte incorpora
>>>>>> em seu sistema de justificação a parte prescreve o que ele não saberá. Ou
>>>>>> seja, ele interpreta, com ajuda da má formulação da sentença, uma 
>>>>>> ausência
>>>>>> de informação como informação positiva.
>>>>>> Esse movimento incorpora na lógica do rábula uma modalidade
>>>>>> metalinguística. O sistema resultante de justificação do rábula é baseado
>>>>>> na própria noção de justificação que o sistema tenta capturar. Esse é um
>>>>>> tipo de planificação da linguagem/metalinguagem é problemática e não gera
>>>>>> um sistema dedutivo confiável. De qualquer modo, uma formalização simples
>>>>>> desse sistema em logica modal resulta inconsistente.
>>>>>>
>>>>>> É assim que vejo o problema.
>>>>>>
>>>>>> Abraço
>>>>>> Rodrigo
>>>>>>
>>>>>>
>>>>>>
>>>>>>
>>>>>>
>>>>>>
>>>>>> On Mon, Mar 23, 2020 at 4:26 PM Andrea Loparic <[email protected]>
>>>>>> wrote:
>>>>>>
>>>>>>> Que tal nos divertirmos com probleminhas interessantes nesse tempo
>>>>>>> de quarentena? Por exemplo, quem de vocês já passou horas quebrando a 
>>>>>>> cuca
>>>>>>> com o chamado"paradoxo do enforcado"?  E quem acha que chegou a uma 
>>>>>>> solução
>>>>>>> do mesmo?
>>>>>>> Para quem não conhece ou não se lembra, lá vai o enunciado (à minha
>>>>>>> moda):
>>>>>>> ====================================================================
>>>>>>>      Num reino distante, um rábula que ousara chamar o rei de
>>>>>>> "infame"
>>>>>>>      recebeu do rei a seguinte sentença condenatória:
>>>>>>>
>>>>>>>           "Você será enforcado às 6 da manhã de um dia, entre
>>>>>>> segunda e
>>>>>>>           sábado da próximo semana,  mas só saberá qual deles às
>>>>>>> 5:50 do
>>>>>>>           próprio dia. quando o carrasco virá buscá-lo para a
>>>>>>> execução."
>>>>>>>
>>>>>>>      O rábula então pensou com seus botões:
>>>>>>>
>>>>>>>           "Essa sentença não pode ser integralmente cumprida! Pois
>>>>>>> sendo o
>>>>>>>           sábado o último dia da próxima semana, ele está excluido,
>>>>>>> uma vez
>>>>>>>           que como o carrasco não tivesse aparecido na sexta feira
>>>>>>> as 5:50,
>>>>>>>           a partir desse momento eu ia ficar sabendo que seria
>>>>>>> executado no
>>>>>>>           dia seguinte. Mas, como o sábado fica excluido, o mesmo
>>>>>>> raciocínio
>>>>>>>           vale para a sexta, que fica sendo o último dia, assim na
>>>>>>> quinta às
>>>>>>>           5:50, eu já ia ficar sabendo.  E assim por diante, podemos
>>>>>>> ir
>>>>>>>           eliminando cada um dos dias da mesma forma, portanto
>>>>>>> a  sentença
>>>>>>>           não poderá ser integralmente cumprida.  Ora, pelo
>>>>>>> paragrafo único
>>>>>>>           do artigo sexto do nosso Código Penal,  uma sentença que
>>>>>>> não pode
>>>>>>>           ser  literalmente cumprida é nula de direito. Assim, posso
>>>>>>> ficar
>>>>>>>           tranquilo que não vou ser executado. "
>>>>>>>
>>>>>>>      E assim ficou o rábula até as 5:50 da terça feira, quando o
>>>>>>> carrasco apareceu para conduzi-lo à forca.
>>>>>>> ==================================================================
>>>>>>>
>>>>>>> Aguardo comentários tranquilos e intranquilos!!!
>>>>>>> Beijos (virtuais, é claro!)
>>>>>>>
>>>>>>> Andréa (Antes confinada que só finada)
>>>>>>>
>>>>>>>
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