Pois é preciso dizer antes em quais termos se coloca o problema para pensar a 
solução. Ainda assim, isto não garante que alguém não o resolva pensando “fora 
da caixa”.

A lenda do nó górdio é um exemplo óbvio. Alexandre o Grande teria sido o único 
que resolveu o problema passando a espada, ao passo que todos antes dele 
pressupuseram que a proposta era desfazer o nó sem partir a corda.

Voltando ao problema específico: as Cortes de Lisboa determinam que El-rei D. 
João VI deve voltar à Lisboa. O monarca responde: “um dia eu volto, hoje não.” 
Como vamos analisar o problema? Usando alguma lógica epistêmica conhecida, como 
T ou D? Usando da simples lógica proposicional clássica? Ou vamos observar como 
as pessoas intuitivamente reagem ao problema?

No caso do exemplo histórico, os deputados portugueses não se surpreenderam com 
o retorno de D. João VI quando aconteceu. Na verdade, ao ouvirem dele que 
regressaria algum dia, mas sem uma data marcada, entenderam que ele não 
regressaria e o pressionaram até que anunciasse sua partida do Rio de Janeiro. 
Qual era a lógica que guiou a intuição política nesse caso? Houve uma lógica 
nisso?

Por isso é que questões em lógica não se limitam à parte técnica. Não existe a 
técnica sem a indispensável reflexão filosófica. É no bojo dela que os 
problemas se formulam. Obviamente, admitimos que ad soluções quando nos chegam 
podem estar fora da caixa, mas neste caso é outrossim necessário ter ciência de 
que a reflexão se deslocou para outros termos. Só com a reflexão clara 
entendemos direito o que significam os problemas e as soluções propostas.

Most problems of teaching are not problems of growth but helping cultivate 
growth. As far as I know, and this is only from personal experience in 
teaching, I think about ninety percent of the problem in teaching, or maybe 
ninety-eight percent, is just to help the students get interested. 
Noam Chomsky 

> On 24 Mar 2020, at 16:48, Rodrigo Freire <[email protected]> wrote:
> 
> 
> Ao contrário, discordo do raciocínio do rábula. O rábula raciocina em um 
> sistema que usa o raciocínio do rábula (o próprio sistema, portanto) na 
> linguagem objeto. Esse sistema é contraditório, dele qualquer coisa se segue. 
> Não se pode usar esse sistema.
> 
>> On Tue, Mar 24, 2020 at 4:08 PM Andrea Loparic <[email protected]> wrote:
>> Bem o que você está dizendo é que o probema tradicional é um 
>> falso problema, ou seja, que a sentença não tem modelo. Você 
>> concorda então com o rábula! E seria contraditado na terça
>> feira, quando fosse surpreendido pela chegada do carrasco 
>> pra te buscar as 5:50 !
>> 
>>      Livre de vírus. www.avast.com.
>> 
>>> Em ter., 24 de mar. de 2020 às 15:48, Rodrigo Freire <[email protected]> 
>>> escreveu:
>>> Oi Andrea,
>>> 
>>> Sim, meu ponto é que a teoria epistêmica resultante não é confiável (se 
>>> formalizada será contraditória). Por isso sugiro que "não saberá de 
>>> véspera" não deve ser interpretada como uma nova informação e internalizada 
>>> através de uma linguagem epistêmica, mas apenas como a metainformação "sem 
>>> mais informações". O problema se dissolve se interpretado desse modo. 
>>> 
>>> Abraço
>>> Rodrigo 
>>> 
>>> 
>>> 
>>> 
>>>> On Tue, Mar 24, 2020 at 3:39 PM Andrea Loparic <[email protected]> wrote:
>>>> Oi Rodrigo,
>>>> 
>>>> Assim formulado, o problema é outro. O problema tradicional é uma questão
>>>> de lógica epistêmica. O não poder saber de véspera é parte da sentença
>>>> do problema tradicional. Eu não estou nesse momento podendo pegar meu
>>>> exemplar do "The ways of Paradox" do Quine, onde ele expõe o problema e
>>>> a solução que ele dá; se você ou algum colega tiver à mão esse livro, peço 
>>>> que copie aqui a formulação que lá aparece.
>>>> Abraços,
>>>> Andréa 
>>>> 
>>>>    Livre de vírus. www.avast.com.
>>>> 
>>>>> Em ter., 24 de mar. de 2020 às 11:15, Rodrigo Freire 
>>>>> <[email protected]> escreveu:
>>>>> Olá Andrea. A formulação da prova surpresa é mais familiar para mim. 
>>>>> 
>>>>> A sentença poderia ser reformulada com o axioma: 
>>>>> 
>>>>> *Você será enforcado na segunda ou na terça ou na quarta ou na quinta ou 
>>>>> na sexta.*
>>>>> 
>>>>> Essa é a única informação da sentença. O resto tem o efeito de "sem mais 
>>>>> informações" e é melhor entendida como uma frase da metalinguagem (sobre 
>>>>> o sistema de informações, não como uma informação adicional). Uma 
>>>>> incorporação do "sem mais informações" como uma informação positiva não 
>>>>> gera um sistema confiável.
>>>>> 
>>>>> A interpretação que o rábula faz da sua sentença de morte incorpora em 
>>>>> seu sistema de justificação a parte prescreve o que ele não saberá. Ou 
>>>>> seja, ele interpreta, com ajuda da má formulação da sentença, uma 
>>>>> ausência de informação como informação positiva.
>>>>> Esse movimento incorpora na lógica do rábula uma modalidade 
>>>>> metalinguística. O sistema resultante de justificação do rábula é baseado 
>>>>> na própria noção de justificação que o sistema tenta capturar. Esse é um 
>>>>> tipo de planificação da linguagem/metalinguagem é problemática e não gera 
>>>>> um sistema dedutivo confiável. De qualquer modo, uma formalização simples 
>>>>> desse sistema em logica modal resulta inconsistente.
>>>>> 
>>>>> É assim que vejo o problema.
>>>>> 
>>>>> Abraço
>>>>> Rodrigo
>>>>> 
>>>>> 
>>>>> 
>>>>> 
>>>>> 
>>>>> 
>>>>>> On Mon, Mar 23, 2020 at 4:26 PM Andrea Loparic <[email protected]> 
>>>>>> wrote:
>>>>>> Que tal nos divertirmos com probleminhas interessantes nesse tempo de 
>>>>>> quarentena? Por exemplo, quem de vocês já passou horas quebrando a cuca 
>>>>>> com o chamado"paradoxo do enforcado"?  E quem acha que chegou a uma 
>>>>>> solução do mesmo?
>>>>>> Para quem não conhece ou não se lembra, lá vai o enunciado (à minha 
>>>>>> moda):
>>>>>> ====================================================================
>>>>>>      Num reino distante, um rábula que ousara chamar o rei de "infame"   
>>>>>>  
>>>>>>      recebeu do rei a seguinte sentença condenatória:
>>>>>> 
>>>>>>           "Você será enforcado às 6 da manhã de um dia, entre segunda e 
>>>>>>           sábado da próximo semana,  mas só saberá qual deles às 5:50 do 
>>>>>>           próprio dia. quando o carrasco virá buscá-lo para a execução."
>>>>>> 
>>>>>>      O rábula então pensou com seus botões:
>>>>>> 
>>>>>>           "Essa sentença não pode ser integralmente cumprida! Pois sendo 
>>>>>> o  
>>>>>>           sábado o último dia da próxima semana, ele está excluido, uma 
>>>>>> vez 
>>>>>>           que como o carrasco não tivesse aparecido na sexta feira as 
>>>>>> 5:50,    
>>>>>>           a partir desse momento eu ia ficar sabendo que seria executado 
>>>>>> no
>>>>>>           dia seguinte. Mas, como o sábado fica excluido, o mesmo 
>>>>>> raciocínio
>>>>>>           vale para a sexta, que fica sendo o último dia, assim na 
>>>>>> quinta às  
>>>>>>           5:50, eu já ia ficar sabendo.  E assim por diante, podemos ir 
>>>>>>           eliminando cada um dos dias da mesma forma, portanto a  
>>>>>> sentença 
>>>>>>           não poderá ser integralmente cumprida.  Ora, pelo paragrafo 
>>>>>> único 
>>>>>>           do artigo sexto do nosso Código Penal,  uma sentença que não 
>>>>>> pode
>>>>>>           ser  literalmente cumprida é nula de direito. Assim, posso 
>>>>>> ficar 
>>>>>>           tranquilo que não vou ser executado. "
>>>>>> 
>>>>>>      E assim ficou o rábula até as 5:50 da terça feira, quando o 
>>>>>> carrasco apareceu para conduzi-lo à forca.  
>>>>>> ==================================================================
>>>>>> 
>>>>>> Aguardo comentários tranquilos e intranquilos!!!
>>>>>> Beijos (virtuais, é claro!)
>>>>>> 
>>>>>> Andréa (Antes confinada que só finada)
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