Ou seja, dir-se-á que não existem os unicórnios porque podemos ignorá-los
já que eles não podem atacar-nos com seus chifres, ao contrário dos
rinocerontes.
Mas, então qual seria a consequência de ignorar conjuntos paraconsistentes?
Qual seria o dano?

Em seg, 9 de dez de 2019 16:39, 'Durante' via LOGICA-L <
[email protected]> escreveu:

> Prezados,
>
> Aqui vão meus "dois tostões" de comentários alegóricos sobre o formalismo.
>
> O que é isso que existe, que uma formalização bem definida indica existir?
> Acho que o formalismo jamais chega àquilo que existe, mas apenas ao
> conceito daquilo que se considera que existe. A formalização, como o nome
> indica, nos leva a formas não a substâncias (conteúdo), e o formalismo, eu
> acho, identifica a forma com o bolo.
> Mas parece que algo se perde aí, afinal, é o bolo que sacia o apetite, não
> a forma. Mas, para aquilo com o que não conseguimos tropeçar, que não dói
> quando cai na nossa cabeça, que não é captado pelas antenas de nossos
> celulares, o que haveria além da forma? Eu acho que há um elemento extra
> não capturável pelo mero formalismo. Há uma disposição.
> A existência, em um sentido amplo, me parece ser apenas uma disposição do
> pensamento.
> As pedras não são meros conceitos (formas), mas existem (têm substância,
> realidade, conteúdo, são instanciadas) porque nos dispomos a pensar que
> elas existem, e estamos assim dispostos, porque dói se as ignoramos.
> Do mesmo modo, o valor do dinheiro existe porque nos dispomos a pensar que
> ele existe, e estamos assim dispostos, porque dói (mais até do que algumas
> pedras) se o ignoramos.
> Algumas das entidades matemáticas existem porque nos dispomos a pensar que
> elas existem, e estamos assim dispostos, porque elas dão estrutura à nossa
> concepção da realidade, e a pressuposição desta estrutura nos ajuda a
> prever e evitar situações em que sentiríamos a dor das pedras e das
> dívidas. Ou seja, estamos dispostos a pensar que algumas entidades
> matemáticas existem, porque dói se as ignoramos.
> O chupa-cabras não existe porque não estamos dispostos a pensar que ele
> exista, e não estamos assim dispostos, porque ignorá-lo não dói.
> Quanto ao estilo e ao bom gosto, bem, eu diria que variadas versões deles
> existem para alguns, mas não existem para outros. Existem para aqueles cuja
> sensibilidade mais frágil os faria sentir dor em situações nas quais eles
> os ignoram. E não existem para aqueles mais casca grossa para quem ignorar
> o estilo e o bom gosto jamais provocaria qualquer dor.
>
> Saudações,
> Daniel.
>
> Em sexta-feira, 6 de dezembro de 2019 22:31:42 UTC-3, gonzalcg escreveu:
>>
>> Prezado Walter e lista,
>>
>> Coincido contigo, que o formalismo ---e fundamentalmente o de Hilbert,
>> entre tantas variantes dele--- é uma saída "confortável" e eu
>> acrescentaria: genial. Além disso, o formalismo foi apresentado mais de uma
>> vez como uma alternativa ao idealismo-platonismo.
>>
>> O problema está quando o platonismo que jogamos fora pela porta, entra
>> pela janela de uma concepção platonista da linguagem. Claro, um problema
>> para aqueles que se reivindicam não platonistas, como eu.
>>
>> Sim, "não somente em matemática" como você disse. Porque envolve-se em
>> contextos mais amplos que o relacionam com vários outros problemas, como
>> posições realistas e não realistas em ciência empírica:
>> existe o eléctron?
>> existe o inconsciente?
>> existe a vida?
>>
>> Carlos
>>
>>
>>
>>
>>
>> On Sat, Dec 7, 2019 at 12:23 AM Walter Alexandre Carnielli <
>> [email protected]> wrote:
>>
>>> Olá Carlos e tod@s,
>>>
>>> SIm, é a velha questão da existência, mas não  somente em matemática.
>>> Na matemática temos a questão da existência  dos números complexos,
>>> do infinito,do ponto...mas também fora disso há a questão da
>>> existência do estilo, do bom gosto, etc.  O formalismo é uma saída.
>>> confortável,
>>> e talvez a única.   Não tenho nada contra os sócios da  SADAF (que
>>> sempre me pareceu  saída de um  conto do Borges)  e menos ainda
>>> contra os argentinos :-)
>>>
>>> Abraços,
>>>
>>> Walter
>>>
>>> Em sex., 6 de dez. de 2019 às 15:21, Carlos Gonzalez
>>> <[email protected]> escreveu:
>>> >
>>> > Caro Walter e lista,
>>> >
>>> > Ai, a velha questão da existência em matemática!
>>> >
>>> > Parece que o tua posição está inspirada de alguma maneira em Hilbert
>>> ou no formalismo, quando você escreve:
>>> > >>>
>>> > É natural aceitar esta noção de  "existir" como  "estrutura.
>>> > matemática definida rigorosamente".
>>> > <<<
>>> >
>>> > Se não assumir uma posição idealista ou platonista extrema, a
>>> existência em matemática é uma analogia ---quase uma metáfora--- da
>>> existência metafísica na realidade ou na natureza.
>>> >
>>> > Suponha que formalizamos Chapeuzinho Vermelho em ZF:
>>> > ∅ é Chapeuzinho
>>> > {∅} é a mãe dela
>>> > {{∅}} é a vovozinha
>>> > {∅,{∅}} é o lobo mau
>>> > {∅,{{∅}}} é o caminho do bosque
>>> > etc.
>>> > Podem ser definidas relações: "x mãe de y", "x avô de y", "x come y",
>>> "x vai por y", etc.
>>> > Um hilbertiano poderia afirmar que Chapeuzinho Vermelho existe. Mas é
>>> uma existência matemática, não existe na natureza.
>>> >
>>> > Isto não é uma brincadeira, mas um problema muito sério.
>>> > Por exemplo, pensemos na relação Bedeutung de Frege, mal traduzida
>>> como "denotação", etc.
>>> > Nessa concepção, o termo "mesa" nunca pode "denotar" a mesa que eu
>>> estou usando para escrever, nem o termo "rio Amazonas" pode "denotar" o rio
>>> homônimo no norte do Brasil:
>>> >  o termo "rio Amazonas"  "denota", na concepção fregiana, um objeto
>>> matemático, porque a relação foi definida à maneira matemática.
>>> >
>>> > Possivelmente, atrás desse problema e do abuso de maneiras matemáticas
>>> esteja mais uma vez alguma forma do "paradoxo da análise", como parece
>>> assinalar o trabalho de Tomas Moro Simpson.
>>> >   "Formas Lógicas, Realidad y significado", cuja leitura recomendo,
>>> apesar dele ter sido argentino e sócio da SADAF (que nem eu :-) )
>>> >
>>> > Carlos
>>> >
>>> >
>>> >
>>> >
>>> > On Thu, Dec 5, 2019 at 5:21 PM Walter Carnielli <[email protected]>
>>> wrote:
>>> >>
>>> >> Oi Tony,
>>> >>
>>> >> A pergunta é boa.  E a minha resposta, da maneira mais simples
>>> >> possível,  vai ser também. :-)
>>> >> A teoria de conjuntos clássica  (standard)  é apenas uma coleção de
>>> >> sentenças. O  que garante a "existência" dos conjuntos clássicos?
>>> >> Seus modelos, levando em conta o Axioma  do Infinito.
>>> >>
>>> >> Mas o que é "existir"? Existe o  modelo de Von Neumann dos naturais,
>>> >> por exemplo?
>>> >>  Em ZF os números naturais são definidos recursivamente. via ordinais
>>> >> de von Neumann  tomando 0 = { }  (o conjunto vazio)
>>> >> e n + 1 =S(n)= n ∪ {n} para cada n. A estrutura ⟨N, 0, S⟩ é um modelo
>>> >> dos axiomas. de Peano.
>>> >> A  "existência"  do conjunto N segue do axioma do infinito de  ZF.
>>> >> É natural aceitar esta noção de  "existir" como  "estrutura.
>>> >> matemática definidarigorosamente". Existe
>>> >> tanto, ou msis, quanto a ironia, o bom gosto ou a boa-vontade.
>>> >>
>>> >> Analogamente,  o que garante a existência de conjuntos
>>> >> paraconsistentes?  Resposta: seus modelos;
>>> >> Nossos  modelos, baseados em Twist-Valued Models, são bastante
>>> >> próximos, neste sentido, dos modelos standard de ZF.
>>> >> Abs
>>> >>
>>> >> W.
>>> >>
>>> >> Em qui, 5 de dez de 2019 14:05, Tony Marmo <[email protected]>
>>> escreveu:
>>> >> >
>>> >> > Caro Walter,
>>> >> >
>>> >> > Já que levantou o assunto, vou fazer uma pergunta:
>>> >> >
>>> >> > Os conjuntos paraconsistentes existem?
>>> >> >
>>> >> > Uma paráfrase possível para essa pergunta: o que garante a
>>> existência de conjuntos paraconsistentes?
>>> >> >
>>> >> > Obrigado
>>> >> >
>>> >> > Em qui, 5 de dez de 2019 12:36, Walter Carnielli <
>>> [email protected]> escreveu:
>>> >> >>
>>> >> >> Caros colegas:
>>> >> >>
>>> >> >> Em vista do interesse do assunto, julgamos apropriado divulgar,
>>> >> >> abraços,
>>> >> >> Walter
>>> >> >> =========================
>>> >> >> Twist-Valued Models for Three-valued Paraconsistent Set Theory
>>> >> >> W. Carnielli and M. E. Coniglio
>>> >> >> https://arxiv.org/pdf/1911.11833.pdf
>>> >> >>
>>> >> >>  Light abstract:
>>> >> >>
>>> >> >>  Paraconsistent  set theory (PST)  is the theoretical move to
>>> maintain
>>> >> >> the freedom of defining sets, while stripping the theory of
>>> >> >> unnecessary principles, so as to avoid triviality -- a disastrous
>>> >> >> consequences of contradictions involving sets in  ZF. A  hard
>>> problem
>>> >> >> is to  find good models for PST.
>>> >> >>
>>> >> >> B. Löwe and S. Tarafder proposed in 2015 a class of algebras based
>>> on
>>> >> >> a certain kind of implication which satisfy several axioms of ZF.
>>> From
>>> >> >> this class, they found a specific 3-valued model called PS3 which
>>> >> >> satisfies all the axioms of ZF, and can be expanded with a
>>> >> >> paraconsistent negation *, thus obtaining a paraconsistent model of
>>> >> >> ZF. The logic (PS3 ,*) coincides (up to  the language) with da
>>> Costa
>>> >> >> and D'Ottaviano logic J3, a 3-valued paraconsistent logic that have
>>> >> >> been proposed independently in the literature by several authors
>>> and
>>> >> >> with different motivations such as CluNs, LFI1 and MPT.
>>> >> >>
>>> >> >>  We propose in this paper a family of algebraic models of ZFC
>>> based on
>>> >> >> LPT0, another linguistic variant of J3 introduced by us in 2016.
>>> The
>>> >> >> semantics of LPT0, as well as of its first-order version QLPT0, is
>>> >> >> given by twist structures defined over Boolean algebras.
>>> >> >>
>>> >> >> Twist-valued models are natural generalizations of  the
>>> Boolean-valued
>>> >> >> models of set theory independently introduced by Scott, Solovay and
>>> >> >> Vopěnka.
>>> >> >>
>>> >> >> Our twist-valued models are adapted to provide a class of
>>> twist-valued
>>> >> >> models for (PS3,*), thus generalizing Löwe and Tarafder's
>>> results. It is
>>> >> >> shown that they are in fact models of ZFC (not only of ZF).
>>> >> >>  ====================================
>>> >> >>
>>> >> >> Walter Carnielli
>>> >> >>  https://waltercarnielli.com/
>>> >> >>
>>> >> >> Centre for Logic, Epistemology and the History of Science and
>>> >> >> Department of Philosophy
>>> >> >> State University of Campinas –UNICAMP
>>> >> >> 13083-859 Campinas -SP, Brazil
>>> >> >>
>>> >> >>  CV Lattes : http://lattes.cnpq.br/1055555496835379
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