Prezados,

Aqui vão meus "dois tostões" de comentários alegóricos sobre o formalismo.

O que é isso que existe, que uma formalização bem definida indica existir? 
Acho que o formalismo jamais chega àquilo que existe, mas apenas ao 
conceito daquilo que se considera que existe. A formalização, como o nome 
indica, nos leva a formas não a substâncias (conteúdo), e o formalismo, eu 
acho, identifica a forma com o bolo.
Mas parece que algo se perde aí, afinal, é o bolo que sacia o apetite, não 
a forma. Mas, para aquilo com o que não conseguimos tropeçar, que não dói 
quando cai na nossa cabeça, que não é captado pelas antenas de nossos 
celulares, o que haveria além da forma? Eu acho que há um elemento extra 
não capturável pelo mero formalismo. Há uma disposição.
A existência, em um sentido amplo, me parece ser apenas uma disposição do 
pensamento.
As pedras não são meros conceitos (formas), mas existem (têm substância, 
realidade, conteúdo, são instanciadas) porque nos dispomos a pensar que 
elas existem, e estamos assim dispostos, porque dói se as ignoramos.
Do mesmo modo, o valor do dinheiro existe porque nos dispomos a pensar que 
ele existe, e estamos assim dispostos, porque dói (mais até do que algumas 
pedras) se o ignoramos.
Algumas das entidades matemáticas existem porque nos dispomos a pensar que 
elas existem, e estamos assim dispostos, porque elas dão estrutura à nossa 
concepção da realidade, e a pressuposição desta estrutura nos ajuda a 
prever e evitar situações em que sentiríamos a dor das pedras e das 
dívidas. Ou seja, estamos dispostos a pensar que algumas entidades 
matemáticas existem, porque dói se as ignoramos.
O chupa-cabras não existe porque não estamos dispostos a pensar que ele 
exista, e não estamos assim dispostos, porque ignorá-lo não dói.
Quanto ao estilo e ao bom gosto, bem, eu diria que variadas versões deles 
existem para alguns, mas não existem para outros. Existem para aqueles cuja 
sensibilidade mais frágil os faria sentir dor em situações nas quais eles 
os ignoram. E não existem para aqueles mais casca grossa para quem ignorar 
o estilo e o bom gosto jamais provocaria qualquer dor.

Saudações,
Daniel.

Em sexta-feira, 6 de dezembro de 2019 22:31:42 UTC-3, gonzalcg escreveu:
>
> Prezado Walter e lista,
>
> Coincido contigo, que o formalismo ---e fundamentalmente o de Hilbert, 
> entre tantas variantes dele--- é uma saída "confortável" e eu 
> acrescentaria: genial. Além disso, o formalismo foi apresentado mais de uma 
> vez como uma alternativa ao idealismo-platonismo.
>
> O problema está quando o platonismo que jogamos fora pela porta, entra 
> pela janela de uma concepção platonista da linguagem. Claro, um problema 
> para aqueles que se reivindicam não platonistas, como eu. 
>
> Sim, "não somente em matemática" como você disse. Porque envolve-se em 
> contextos mais amplos que o relacionam com vários outros problemas, como 
> posições realistas e não realistas em ciência empírica: 
> existe o eléctron?
> existe o inconsciente?
> existe a vida?
>
> Carlos
>
>
>
>
>
> On Sat, Dec 7, 2019 at 12:23 AM Walter Alexandre Carnielli <
> [email protected] <javascript:>> wrote:
>
>> Olá Carlos e tod@s,
>>
>> SIm, é a velha questão da existência, mas não  somente em matemática.
>> Na matemática temos a questão da existência  dos números complexos,
>> do infinito,do ponto...mas também fora disso há a questão da
>> existência do estilo, do bom gosto, etc.  O formalismo é uma saída.
>> confortável,
>> e talvez a única.   Não tenho nada contra os sócios da  SADAF (que
>> sempre me pareceu  saída de um  conto do Borges)  e menos ainda
>> contra os argentinos :-)
>>
>> Abraços,
>>
>> Walter
>>
>> Em sex., 6 de dez. de 2019 às 15:21, Carlos Gonzalez
>> <[email protected] <javascript:>> escreveu:
>> >
>> > Caro Walter e lista,
>> >
>> > Ai, a velha questão da existência em matemática!
>> >
>> > Parece que o tua posição está inspirada de alguma maneira em Hilbert ou 
>> no formalismo, quando você escreve:
>> > >>>
>> > É natural aceitar esta noção de  "existir" como  "estrutura.
>> > matemática definida rigorosamente".
>> > <<<
>> >
>> > Se não assumir uma posição idealista ou platonista extrema, a 
>> existência em matemática é uma analogia ---quase uma metáfora--- da 
>> existência metafísica na realidade ou na natureza.
>> >
>> > Suponha que formalizamos Chapeuzinho Vermelho em ZF:
>> > ∅ é Chapeuzinho
>> > {∅} é a mãe dela
>> > {{∅}} é a vovozinha
>> > {∅,{∅}} é o lobo mau
>> > {∅,{{∅}}} é o caminho do bosque
>> > etc.
>> > Podem ser definidas relações: "x mãe de y", "x avô de y", "x come y", 
>> "x vai por y", etc.
>> > Um hilbertiano poderia afirmar que Chapeuzinho Vermelho existe. Mas é 
>> uma existência matemática, não existe na natureza.
>> >
>> > Isto não é uma brincadeira, mas um problema muito sério.
>> > Por exemplo, pensemos na relação Bedeutung de Frege, mal traduzida como 
>> "denotação", etc.
>> > Nessa concepção, o termo "mesa" nunca pode "denotar" a mesa que eu 
>> estou usando para escrever, nem o termo "rio Amazonas" pode "denotar" o rio 
>> homônimo no norte do Brasil:
>> >  o termo "rio Amazonas"  "denota", na concepção fregiana, um objeto 
>> matemático, porque a relação foi definida à maneira matemática.
>> >
>> > Possivelmente, atrás desse problema e do abuso de maneiras matemáticas 
>> esteja mais uma vez alguma forma do "paradoxo da análise", como parece 
>> assinalar o trabalho de Tomas Moro Simpson.
>> >   "Formas Lógicas, Realidad y significado", cuja leitura recomendo, 
>> apesar dele ter sido argentino e sócio da SADAF (que nem eu :-) )
>> >
>> > Carlos
>> >
>> >
>> >
>> >
>> > On Thu, Dec 5, 2019 at 5:21 PM Walter Carnielli <[email protected] 
>> <javascript:>> wrote:
>> >>
>> >> Oi Tony,
>> >>
>> >> A pergunta é boa.  E a minha resposta, da maneira mais simples
>> >> possível,  vai ser também. :-)
>> >> A teoria de conjuntos clássica  (standard)  é apenas uma coleção de
>> >> sentenças. O  que garante a "existência" dos conjuntos clássicos?
>> >> Seus modelos, levando em conta o Axioma  do Infinito.
>> >>
>> >> Mas o que é "existir"? Existe o  modelo de Von Neumann dos naturais,
>> >> por exemplo?
>> >>  Em ZF os números naturais são definidos recursivamente. via ordinais
>> >> de von Neumann  tomando 0 = { }  (o conjunto vazio)
>> >> e n + 1 =S(n)= n ∪ {n} para cada n. A estrutura ⟨N, 0, S⟩ é um modelo
>> >> dos axiomas. de Peano.
>> >> A  "existência"  do conjunto N segue do axioma do infinito de  ZF.
>> >> É natural aceitar esta noção de  "existir" como  "estrutura.
>> >> matemática definidarigorosamente". Existe
>> >> tanto, ou msis, quanto a ironia, o bom gosto ou a boa-vontade.
>> >>
>> >> Analogamente,  o que garante a existência de conjuntos
>> >> paraconsistentes?  Resposta: seus modelos;
>> >> Nossos  modelos, baseados em Twist-Valued Models, são bastante
>> >> próximos, neste sentido, dos modelos standard de ZF.
>> >> Abs
>> >>
>> >> W.
>> >>
>> >> Em qui, 5 de dez de 2019 14:05, Tony Marmo <[email protected] 
>> <javascript:>> escreveu:
>> >> >
>> >> > Caro Walter,
>> >> >
>> >> > Já que levantou o assunto, vou fazer uma pergunta:
>> >> >
>> >> > Os conjuntos paraconsistentes existem?
>> >> >
>> >> > Uma paráfrase possível para essa pergunta: o que garante a 
>> existência de conjuntos paraconsistentes?
>> >> >
>> >> > Obrigado
>> >> >
>> >> > Em qui, 5 de dez de 2019 12:36, Walter Carnielli <
>> [email protected] <javascript:>> escreveu:
>> >> >>
>> >> >> Caros colegas:
>> >> >>
>> >> >> Em vista do interesse do assunto, julgamos apropriado divulgar,
>> >> >> abraços,
>> >> >> Walter
>> >> >> =========================
>> >> >> Twist-Valued Models for Three-valued Paraconsistent Set Theory
>> >> >> W. Carnielli and M. E. Coniglio
>> >> >> https://arxiv.org/pdf/1911.11833.pdf
>> >> >>
>> >> >>  Light abstract:
>> >> >>
>> >> >>  Paraconsistent  set theory (PST)  is the theoretical move to 
>> maintain
>> >> >> the freedom of defining sets, while stripping the theory of
>> >> >> unnecessary principles, so as to avoid triviality -- a disastrous
>> >> >> consequences of contradictions involving sets in  ZF. A  hard 
>> problem
>> >> >> is to  find good models for PST.
>> >> >>
>> >> >> B. Löwe and S. Tarafder proposed in 2015 a class of algebras based 
>> on
>> >> >> a certain kind of implication which satisfy several axioms of ZF. 
>> From
>> >> >> this class, they found a specific 3-valued model called PS3 which
>> >> >> satisfies all the axioms of ZF, and can be expanded with a
>> >> >> paraconsistent negation *, thus obtaining a paraconsistent model of
>> >> >> ZF. The logic (PS3 ,*) coincides (up to  the language) with da Costa
>> >> >> and D'Ottaviano logic J3, a 3-valued paraconsistent logic that have
>> >> >> been proposed independently in the literature by several authors and
>> >> >> with different motivations such as CluNs, LFI1 and MPT.
>> >> >>
>> >> >>  We propose in this paper a family of algebraic models of ZFC based 
>> on
>> >> >> LPT0, another linguistic variant of J3 introduced by us in 2016. The
>> >> >> semantics of LPT0, as well as of its first-order version QLPT0, is
>> >> >> given by twist structures defined over Boolean algebras.
>> >> >>
>> >> >> Twist-valued models are natural generalizations of  the 
>> Boolean-valued
>> >> >> models of set theory independently introduced by Scott, Solovay and
>> >> >> Vopěnka.
>> >> >>
>> >> >> Our twist-valued models are adapted to provide a class of 
>> twist-valued
>> >> >> models for (PS3,*), thus generalizing Löwe and Tarafder's  results. 
>> It is
>> >> >> shown that they are in fact models of ZFC (not only of ZF).
>> >> >>  ====================================
>> >> >>
>> >> >> Walter Carnielli
>> >> >>  https://waltercarnielli.com/
>> >> >>
>> >> >> Centre for Logic, Epistemology and the History of Science and
>> >> >> Department of Philosophy
>> >> >> State University of Campinas –UNICAMP
>> >> >> 13083-859 Campinas -SP, Brazil
>> >> >>
>> >> >>  CV Lattes : http://lattes.cnpq.br/1055555496835379
>> >> >>
>> >> >> --
>> >> >> Você está recebendo esta mensagem porque se inscreveu no grupo 
>> "LOGICA-L" dos Grupos do Google.
>> >> >> Para cancelar inscrição nesse grupo e parar de receber e-mails 
>> dele, envie um e-mail para [email protected] <javascript:>.
>> >> >> Para ver esta discussão na web, acesse 
>> https://groups.google.com/a/dimap.ufrn.br/d/msgid/logica-l/CA%2Bob58PmnD0nmGai5Fz4kfeJ_Dd%3DTq0Z%3DnVeFH9Y22F1GdeMeQ%40mail.gmail.com
>> .
>> >>
>> >> --
>> >> Você está recebendo esta mensagem porque se inscreveu no grupo 
>> "LOGICA-L" dos Grupos do Google.
>> >> Para cancelar inscrição nesse grupo e parar de receber e-mails dele, 
>> envie um e-mail para [email protected] <javascript:>.
>> >> Para ver esta discussão na web, acesse 
>> https://groups.google.com/a/dimap.ufrn.br/d/msgid/logica-l/CA%2Bob58Na7LD5PTbkbj%3DUCuyK%3DAA0327arRgsq7%3DFdw7LsKxsEg%40mail.gmail.com
>> .
>> >
>> > --
>> > Você recebeu essa mensagem porque está inscrito no grupo "LOGICA-L" dos 
>> Grupos do Google.
>> > Para cancelar inscrição nesse grupo e parar de receber e-mails dele, 
>> envie um e-mail para [email protected] <javascript:>.
>> > Para ver essa discussão na Web, acesse 
>> https://groups.google.com/a/dimap.ufrn.br/d/msgid/logica-l/CAGJaJ%2B8mAwhaVOKi5dGCx-M5_hpoNoCJzF6jt2Au7BE4Rzff3A%40mail.gmail.com
>> .
>>
>

-- 
Você está recebendo esta mensagem porque se inscreveu no grupo "LOGICA-L" dos 
Grupos do Google.
Para cancelar inscrição nesse grupo e parar de receber e-mails dele, envie um 
e-mail para [email protected].
Para ver esta discussão na web, acesse 
https://groups.google.com/a/dimap.ufrn.br/d/msgid/logica-l/0eb5335f-7c9a-4b49-aa15-fa6331954907%40dimap.ufrn.br.

Responder a