Prezado JM e lista,

Lembro-me de que Klimovsky considerava uma teoria científica como um
conjunto de objetos linguísticos, seja um conjunto de proposições, seja um
conjunto de asserções, etc. Então estava forçado a recorrer a algum
procedimento que fornecesse os detalhes da semântica. Poderiam ser as
velhas "regras de correspondência" ou conceitos de outros filósofos que eu
nunca entendi muito bem.

Eu sou o suficientemente kuhniano como para rejeitar essas visões
linguísticas, fanaticamente linguísticas. Mas Kuhn não elucidou
suficientemente o problema ---até onde eu entendi--- chamando a algumas
fórmulas da teoria de "generalizações simbólicas" que formam parte do
paradigma quando é entendido como "matriz disciplinar". Porque Kuhn
praticamente desconheceu os problemas linguísticos, sobre tudo semânticos,
envolvidos nos conceitos científicos. Filósofos da ciência atuais, como
Nancy Cartwright, tratam com muito respeito a "rede semântica" envolvida
nas teorias científicas, mas parece que não tem se preocupado muito por
elucidar esse funcionamento semântico das teorias científicas, até onde eu
conheço e entendi.

Se considerarmos o problema num isolamento da linguagem (coisa criticada
por vários autores, como Adam Shaff ou Julia Kristeva) então "f=m.a" é só
um "x=y.z" , apesar de que na teoria científica o primeiro nunca trabalha
semanticamente como o segundo em matemática.

Talvez no fundo de tudo isso esteja o problema de que estamos entendendo de
uma maneira muito errada o que é uma linguagem, porque von Humbolt,
Saussure, Frege e outros seguiram um caminho muito errado que deve ser
desandado com o uso da crítica. Eu repito constantemente a frase de
Kristeva de que os estudos da linguagem ficaram a cargo de arquivistas e
necrófilos. Ou o provocador título de um do seus livros: "A linguagem, essa
desconhecida". Mas eu não vejo em Kristeva uma crítica suficientemente
aprofundada como para ser coerente com a sua posição radical sobre a
linguagem.

Carlos

A frase de Kristeva citada acima:
Pensees d'archivistes, d'archeologues ou de necrophiles que nos
philosophies du langage, avatars de l'Idee, qui se fascinent devant les
restes d'un fonctionnement entre autres discursif, et remplacent, par ce
fetiche, ce qui l'a produit.
Julia Kristeva. La révolution du langage poétique, Vol. 48. Editions du
Seuil, 1974.. p. 11


On Thu, Dec 5, 2019 at 11:56 PM Joao Marcos <[email protected]> wrote:

> > Pois é, mas se pensarmos em termos de linguagem, ou seja,
> > que uma teoria é uma coleção de asserções, ainda temos diante
> > de nós o dilema sobre qual visão semântica é a mais adequada
> > para aquela linguagem: se uma que considera somente os cavalos
> > ou "aceita também os unicórnios".
>
> A propósito, é possível considerar teorias contendo tanto asserções
> quanto denegações (i.e., assertions & denials):
>
> What is a logical theory? On theories containing assertions and denials
> https://link.springer.com/article/10.1007/s11229-019-02183-z
>
> Neste tipo de teorias é possível rejeitar diretamente alguns
> unicórnios, se eles lhe aborrecerem.
>
> ###
>
> <humor>
> E por falar em unicórnios com chifres perfurantes, esta paródia dos
> Simpsons feitas pelo Banksy é afiada!
> https://youtu.be/DX1iplQQJTo?t=84
> </humor>
>
> ###
>
> Joao Marcos
>
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> dos Grupos do Google.
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> um e-mail para [email protected].
> Para ver esta discussão na web, acesse
> https://groups.google.com/a/dimap.ufrn.br/d/msgid/logica-l/CAO6j_LhQ4KTB0HhNJmuaeEoJZB81Ha6AkuznAmOF5eGDOsFE_w%40mail.gmail.com
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