Fala Samuel, Walter e Henrique,

> O estudante é criativo ,mas está enganado: una das leis da Igualdade diz que 
> "qualquer coisa é igual a si própria",  mas não diz que existe algo.

É Walter, mas se esta lei da igualdade está na lógica clássica, então tem uma 
prova de duas linhas do argumento

Vx(x=x)  |–  Ex(x=x)

Aliás, na lógica clássica em geral vale:

(1) |-VxPx => |-ExPx

Ou seja, na lógica clássica, se uma dada propriedade 'P' vale para qualquer um, 
então existe alguém que a instancia.

Aí, então, eu acho que o estudante está certo em dispensar o axioma, desde que 
aceite a lógica clássica.

Mas o que eu acho mais interessante ainda que isso é pensar no contrário. Será 
que tem algum teorema existencial que não é universal na lógica clássica? Será 
que vale:

(2) |-ExPx => |-VxPx

Na lógica clássica, “infelizmente”, (2)  não vale. Existem teoremas clássicos 
existenciais cujas contrapartes universais não são teoremas clássicos. E  digo 
infelizmente  porque eu acho isso é MUITO estranho.

Não deveria ser papel da  lógica postular a existência de coisas específicas. 
Esse, me parece, é um papel das teorias, não das lógicas. A teoria de conjuntos 
(ou qualquer outra  teoria), me parece, pode postular a existência de alguma 
coisa que seja diferente de todas as outras. (Existe o conjunto vazio, existem 
unicórnios,...). Mas se alguma lógica faz isso, me parece que ela está 
extrapolando seu papel. A lógica deveria cuidar do que é comum a todos, do que 
é universal.

É como se a lógica clássica fosse meio elitista, preconceituosa, como se ela 
discriminasse os indivíduos.

A lógica intuicionista, por exemplo, não é assim elitista. Nela vale (2). Todo 
teorema existencial é também universal. Não existe discriminação intuicionista 
entre os indivíduos, só discriminação clássica.

Então, todos os exemplos de teoremas existenciais ExP(x) tais que a contraparte 
universal VxP(x) não é teorema, são aqueles casos estranhos (e duvidosos ?) de 
teoremas clássicos que não são teoremas intuicionistas.

Aqui  um exemplo que o João Marcos me mostrou certa vez:

(3) Ex(P(x) -> VyP(y))

(4) Vx(P(x) -> VyP(y))

(3) é teorema clássico, mas (4) não é.

Só que (3) não é teorema intuicionista. Então (3) não é nada mais que um modo 
estranho de afirmar o princípio do terceiro excluído.

Enfim, voltando para a questão do Samuel, qualquer interpretação clássica tem o 
domínio não vazio. Isso significa que não há teorias clássicas cujo universo  
do discurso seja vazio. Todas as teorias clássicas são habitadas.

Isso significa que nenhuma teoria PURA precisa estipular a existência da 
categoria de coisas sobre a qual  teoriza. Esta existência é dada pela lógica.

Então, se  ZFC é uma teoria de primeira ordem clássica que só fala de 
conjuntos, não fala de outras coisas, se nem tem um predicado “É_Conjunto” 
porque só pode ter conjunto no domínio, então ela não precisa mesmo de um 
axioma para postular a existência de conjuntos. Sua existência é garantida pela 
lógica clássica.

Agora se a teoria for impura, se admitir outras coisas, então pode não haver 
conjuntos e ela precisa postular de alguma maneira a existência de conjuntos.

Mas veja. Não há nenhum drama aqui. Em qualquer dos casos a existência de 
conjuntos é uma postulação nossa. Seja explicitamente em um axioma da teoria, 
seja implicitamente restringindo a abrangência dos domínios aceitáveis.

Saudações,
Daniel.

-----
Departamento de Filosofia - (UFRN)
http://danieldurante.weebly.com <http://danieldurante.weebly.com/>



> O axioma de Kunen assevera a existência.
> 
> Abs,
> 
> W.
> 
> 
> Em seg., 9 de out. de 2023 13:57, 'samuel' via LOGICA-L 
> <[email protected] <mailto:[email protected]>> escreveu:
>> Oi gente,
>> 
>> Aproveitando pra comentar da dúvida que eu apresentei na apresentação da 
>> Lidia Batinga (que pro framework dela
>> deu pra ver que a resposta era "sim").
>> 
>> Aí, todo mundo pode dar aqui um pitaco que eu estou curioso com isso já faz 
>> uns três anos.
>> 
>> Lá vai:
>> 
>> O primeiro axioma de Teoria dos Conjuntos, em muitos livros, é o Axioma do 
>> Vazio:
>> 
>> "Existe x tal que para todo y, y não pertence a x"
>> 
>> (que depois é provado ser o único nessas condições pelo Axioma da Separação).
>> 
>> Pois bem: no livro do Kunen dos anos 80 (referência clássica em conjuntos), 
>> o primeiro axioma
>> é um "axioma de existência de conjuntos":
>> 
>> "Existe x tal que x = x"
>> 
>> (como qualquer coisa é igual a si mesmo, o axioma essencialmente diz que 
>> existe uma "qualquer coisa" pra ser igual a si mesma).
>> 
>> Dada a existência de um conjunto, dada pelo axioma acima, e o Axioma de 
>> Separação, obtemos o conjunto vazio separando,
>> nesse x que foi dito existir digamos, o subconjunto
>> 
>> y = {z pertencente a x   |     z é diferente de z   }
>> 
>> e aí esse y não tem elementos (dado que nenhum z satisfaz o pedido) e por 
>> unicidade (dada por Separação) ele é o vazio, OK.
>> 
>> Em resumo, pelo que vocês vêm acima, na presença do Axioma de Separação, 
>> dizer que "existe um conjunto qualquer"
>> ou que "existe um conjunto vazio" dá na mesma, seriam axiomáticas 
>> equivalentes.
>> 
>> ... Mas aí vem a pegadinha.
>> 
>> Numa banca de mestrado que participei, o aluno "se recusou" a aceitar o 
>> axioma do Kunen, "Existe x tal que x = x",
>> com o seguinte argumento:
>> 
>> ---> Essa asserção segue de um axioma lógico sobre igualdade, que é "Para 
>> todo x, x = x", logo, se ela
>> segue de um axioma, essa asserção é um teorema e não deveria ser um outro 
>> axioma.
>> 
>> ... Touché ! Dizer o quê pro aluno numa situação dessas ???
>> 
>> Depois de matutar um pouco a questão toda (pelo menos até onde eu vejo) é: 
>> ao tratarmos de uma teoria,
>> NÓS TEMOS QUE PRESSUPOR QUE O DOMÍNIO DE DISCURSO É NÃO-VAZIO ?
>> 
>> Porque se o domínio de discurso é não-vazio para a Teoria dos Conjuntos, de 
>> fato, para todo x deveríamos
>> ter x = x, então em particular existe x tal que x = x. Seria então um 
>> teorema, não axioma.
>> 
>> Ao ver essa apresentação da Lidia, e uma apresentação que o Henrique Antunes 
>> fez pra nós aqui na Matemática da UFBA,
>> 
>> Foi apresentada essa diferença entre a Lógica clássica e a lógica livre, no 
>> qual, resumidamente
>> 
>> ---> Na lógica clássica os termos se referem a coisas que são supostas 
>> existentes
>> 
>> ---> Na lógica livre isso não vale necessariamente, então podemos falar de 
>> Pégaso e de outros entes imaginários...
>> 
>> Então eu penso, ok, na lógica classe os termos se referem a coisas que 
>> existem.
>> 
>> Mas - antes disso (de definir o que os termos fazem) nós teríamos que 
>> decidir se existem coisas para que os termos possam se 
>> referir a elas, não ? Seria uma espécie de discussão anterior ao papel dos 
>> termos, eles têm coisas existentes pra denotar ?
>> 
>> Então eu perguntei pra Lidia que estava apresentando sobre isso e deu pra 
>> ver que ela pressupõe que o
>> universo de discurso é não-vazio,
>> 
>> E no livro do Kunen tem alguns momentos lá na frente que ele fala que "na 
>> prática" tem que se supor que
>> o universo de discurso é não-vazio (posso achar a página exata se alguém 
>> pedir),
>> 
>> Então minha dúvida é essa: ainda em oposição à lógica livre talvez,
>> 
>> Numa apresentação de uma teoria em lógica clássica,
>> 
>> Devemos, ou é preferível, ou é saudável, ou é do gosto pessoal de cada um,
>> 
>> -----> Supor que o domínio de discurso é não-vazio ?
>> 
>> Se sim, então o axioma "Existe x tal que x = x" é desnecessário (e Kunen 
>> teria ficado contraditório lá no meio do 
>> livro dele ao dizer que já supunha o universo não vazio depois de colocar 
>> esse "axioma zero" na primeira linha
>> do livro então...)
>> 
>> Gostaria de ouvir os colegas,
>> 
>> Abraços, e agradeço a Lidia por sua apresentação e por ter dado essa 
>> oportunidade para uma discussão. 
>> 
>> []s  Samuel
>> 
>> 
>> 
>> 
>> 
>> 
>> 
>> Em quarta-feira, 4 de outubro de 2023 às 14:50:01 UTC-3, Joao Marcos 
>> escreveu:
>>> Mesa-redonda imperdível nesta 5a-feira, 05/10, às 19:00, transmitida pelo 
>>> excelente canal do Núcleo de Lógica e Filosofia Analítica da UFMA:
>>> https://www.youtube.com/live/rcRVKwJPmsk?si=VKK8nkCjLm5dGWmS
>>> 
>>> Em sua segunda iteração, o Encontro Brasileiro de Filósofas Analíticas 
>>> continua sua missão de abrir um espaço de diálogo para que pesquisadoras, 
>>> em fase inicial ou intermediária de pesquisa, de todas as regiões do país, 
>>> se conheçam, compartilhem suas pesquisas e formem uma rede de apoio que 
>>> estimule cada vez mais a presença e permanência de mulheres na Filosofia 
>>> Analítica, em suas mais diferentes ramificações.
>>> 
>>> Na mesa de quinta-feira (05/10/23) teremos uma discussão de temas em 
>>> filosofia da lógica com a Profa. Gisele Secco (UFSM) mediando as seguintes 
>>> comunicações:
>>> - “Referência, Autorreferência e Circularidade” por Fernanda Birolli (USP)
>>> - “Lógica e ontologia: uma relação próxima” por Lídia Batinga (UFPB)
>>> - “Lógica abstrata: o que podemos fazer de novo?” Por Luiza Ramos (USP)
>>> 
>>> %%%
>>> 
>>> Toda uma série de eventos de alta qualidade vêm por aí, como parte da 
>>> segunda iteração do Encontro Brasileiro de Filósofas Analíticas:
>>> https://ebfanaliticas.wixsite.com/ebfa/general-5
>>> 
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>>> 
>>> JM
>> 
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>> LOGICA-L
>> Lista acadêmica brasileira dos profissionais e estudantes da área de Lógica 
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>> Para ver essa discussão na Web, acesse 
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