Caros, O principal problema não é apenas o "prevaricato" ou "improbidade administrativa" envolvida em ações para utilização de recursos públicos destinados ao pagamento de publicações. O problema é a falta de maturidade científica e excesso de deshonestidade que esse tipo de publicação paga está criando na velha e nova geração pseudo-cientista. Da-se muito bem aquele que publica expeditamente um número significativo de artigos em periódicos "bem qualificados":
- candidatos à pós-graduação, - candidatos à ser nossos colegas, - candidatos à bolsas de fomento à pesquisa, - etc. É algo que vem crescendo e contaminando nossas IFES através da incorporação de pessoal que não apresenta qualificação adequada. A ponta do iceberg são os recursos públicos perdidos no pagamento de publicações, mas as implicações econômicas para a pesquisa da nação são maiores. Bolsas, salários e recursos para pesquisa são alocados, como consequência, de forma inadequada. Um fator a considerar seriamente, sobre a avaliação da qualidade das publicações é o tempo que essas editoras investem no processo de revisão. É obvio, em qualquer área da ciência, que um artigo revisado expeditamente, em um par de semanas, e imediatamente publicado não é confiável. Os tempos médios de MDPI Sensors, por exemplo, são de 16 dias para avaliação, e três dias para publicação. Maravilha publicar dessa maneira! Mas para o que? Como pesquisador, não entendo honesto dedicar o meu tempo e o dos meus alunos, pago com recursos públicos, na leitura de produção intelectual avaliada dessa forma expedita. Em síntese, encontro urgente incorporar no Qualis mecanismos que considerem de forma precisa a qualidade dos processos de revisão. Tempos de avaliação reduzidos implicam baixa qualidade. Por outro lado, participar desses empreendimentos piramidais editoriais, é pendurar no pescoço dois diplomas: o de "deshonestidade" e o de "imbecilidade". O primeiro está sendo útil para passarmos a perna em nossos colegas, por enquanto. O segundo, será útil para nos safar do primeiro quando chamados, cedo ou tarde, a prestar contas. Grande abraço, para aqueles que ainda sonham em publicar no Journal of Symbolic Logic, ACM Journal of Logic e similares. Grande despreço para aqueles que pretendem continuar investindo recursos públicos, que bem poderiam ser aplicados em mais bolsas de Mestrado e Doutorado, na publicação expedita usando essa abordagem editorial piramidal. Mauricio On Tuesday, March 28, 2023 at 11:33:35 AM UTC-3 [email protected] wrote: > Em segunda-feira, 27 de março de 2023 às 21:59:20 UTC-3, Walter Carnielli > escreveu: > > Então Hermógenes, considerando os elevados custos da compra de > assinaturas pelo cofres públicos, e considerando > a tendência de pagar para publicar que está pressionando aqueles que > produzem ciência, o que devemos fazer? > Pagar dos dois lados? > > > Pois é, Walter. Acho que um primeiro passo importante é levantar a pauta, > como você fez, e trocar ideias e argumentos entre os colegas para que o > assunto ganhe mais visibilidade e, quem sabe, suscite ações mais > coordenadas (é um problema difícil de solucionar no âmbito meramente > individual). > > Como escrevi, não tenho uma solução universal a sugerir. Mas vou > compartilhar algumas considerações, as quais, contudo, são bastante > peculiares à minha situação e certamente não se aplicam a vários outros > contextos. > > Primeiro, algumas observações, que me parecem incontestáveis: > > 1. O serviço de editoração de casas de publicação científica é ruim, e > parece estar piorando com o passar do tempo (escrevi sobre isto na lista > antes > <https://groups.google.com/a/dimap.ufrn.br/g/logica-l/c/D5hMtl4KedY/m/Jug-fvxaBQAJ>). > > Uma boa parte do serviço é terceirizado a trabalhadores sobrecarregados em > países em desenvolvimento. > > 2. Publicação científica tem custos, sim. Hospedagem, indexação, arquivo > permanente, DOI, software de gerenciamento do fluxo de submissão etc. Nada > disto é gratuito. Contudo, como Valéria tem apontado, existem diversos > exemplos que demonstram que este custo é bem menor do que muitas casas de > publicação alegam, especialmente quando não é necessário bancar o lucro de > proprietários. No âmbito da filosofia, se destacam Philosopher's Imprint > <https://journals.publishing.umich.edu/phimp/> e Ergo > <https://journals.publishing.umich.edu/ergo/> (ambas gerenciadas pela > Michigan Publishing). A qualidade do serviço (tanto para leitores quanto > autores) deixa grande parte das grandes casas editoriais no chinelo. Em > comparação, o custo é irrisório. > > Então, com base nisto e outras observações já aludidas na discussão, uma > estratégia bastante natural seria apoiar veículos com modelo de acesso > livre genuíno e, em caso de insuficiência destes em alguma especialidade, > buscar fundar novos. As condições para desempenhar estas ações variam > bastante de indivíduo para indivíduo, de área de especialidade para área de > especialidade, de contexto para contexto. Portanto, vou focar agora no meu > caso. > > Eu atuo como parecerista para periódicos de grandes editoras. Minha > racionalização/desculpa esfarrapada: a minha área de especialização é > relativamente pequena e praticamente todos os textos são submetidos e/ou > publicados num certo punhado de periódicos de grandes editoras, pelo > simples fato de especialistas fazerem parte do corpo editorial destes > periódicos. Novos pesquisadores na área comumente reclamam de submissões > apodrecendo no "journal hell", em boa parte por dificuldade de arranjar > pareceristas ou, ao menos, de conseguir pareceres em tempo hábil. Isto > afugenta a moçada, a qual, sob pressão para publicar, eventualmente decide > dedicar-se a outra especialidade, contribuindo assim para o arrefecimento > ainda maior da minha área. Portanto, no balanço das coisas, me parece menos > danoso tolerar o status quo, ao menos enquanto não conseguimos pouco a > pouco diversificar para outros veículos. > > Quanto à publicação, a minha intenção é submeter meus melhores artigos > daqui em diante em periódicos mais decentes, ainda que menos prestigiosos. > Sim, o Qualis provavelmente irá me penalizar por isto, pode ser difícil > encontrar pareceristas e etc. Mas acho que, sem um pouco de sacrifício, é > difícil conseguir impulso para sairmos desta encruzilhada. Contudo, não me > parece correto impor esta minha decisão a coautores em caso de artigos > conjuntos. Nestes casos, vou com a sugestão dos meus colaboradores e o que > seria melhor para suas respectivas carreiras. > > *Se eu fosse influente na minha área*, e capaz de aglutinar > pesquisadores, eu fundaria um novo veículo de livre acesso com um bom corpo > editorial, ou convenceria meus pares a abandonar suas funções nos corpos > editoriais das grandes casas e se juntar a mim no corpo editorial de outros > periódicos mais decentes. Tenho certeza que as submissões e, > consequentemente, os artigos publicados iriam nos acompanhar. Até eu chegar > lá, vou vivendo entre frustrações, planos e racionalizações. > > Cordialmente, > > -- > Hermógenes Oliveira > -- LOGICA-L Lista acadêmica brasileira dos profissionais e estudantes da área de Lógica <[email protected]> --- Você está recebendo esta mensagem porque se inscreveu no grupo "LOGICA-L" dos Grupos do Google. Para cancelar inscrição nesse grupo e parar de receber e-mails dele, envie um e-mail para [email protected]. 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