Prezados colegas, prezada Luiza Permanecia em silêncio nesta trend semi-OFF-Topic até o momento, mas como agora pude ler o texto da Professora Barbosa, creio que posso dizer alguma coisa.
Primeiro creio que boa pate da discussão aqui está pautada pelo julgamento (como adequado ou inadequado) de uma expressão utilizada no título do texto (de mau gosto para alguns), e significada ao longo do mesmo (tendo, portanto, algum potencial feminista - por forçada inversão semânticaetc.). *Nota bene*: feminismo aqui sendo usado no sentido amplíssimo e intereseccional, de designador da advocacia por direitos iguais para todos, independentemente de sexo, gênero, cor da pele, etnia, classe social. Creio, ademais, que avaliações justas dos méritos do texto da Professora Barbosa devem atentar a uma miríade de fatores: para o meio no qual ele está publicado (McLuhan ainda nos serve "o meio é a mensagem"!), e por conseguinte ao público amplo ao qual se direciona; para as intenções que o texto, dado seu contexto de publicacão, possui; para seu conteúdo, as informações que veicula. Digo isso porque na sua avaliação, escrita desde uma perspectiva mais especializada em assuntos de feminismo, o texto faz "uma apropriação da opressão sofrida por Marie Curie para uma pauta superficial e rasteira do feminismo suave do nosso tempo." Ora, se considerarmos plausíveis os critérios que ofereci acima, não parece razoável avaliar o texto como rasteiro, pois a eventual superficialidade da abordagem tem relação direta com o contexto de publicação. De outra parte, talvez a autora não tenha optado por uma postura mais radical, e sim "suave", tendo em vista justamente o público que visava. Ou esse seja seu estilo, seu feminismo não-radical. Por fim, ela não veicula nenhuma falsidade sobre as opressões vividas por Curie. Desse modo - e desde minha perspectiva, a de alguém que não é especialista em teorias feministas, mas se considera uma feminista em form-ação (especialmente dentro da academia, na lida diária com e como intermediária entre estudantes da geração pós-levante feminista e colegas pouco familiarizados com esta geração, dentro e fora do Brasil) - vejo que o texto não faz mau uso do caso da Curie, em especial usando o "lugar comum da vitimização e redução do discurso à uma ideologia particular." (Não entendo o que seria essa ideologia particular, a propósito. O feminismo soft?). Muitas vezes as pessoas (em geral homens) precisam mesmo dessas descrições, ouvir casos concretos de opressão (históricas, como o caso do texto, ou cotidianas, como as que escuto de minhas alunas diariamente), para começar a se dar conta da hidra da misoginia. E muitas vezes as pessoas (em geral mulheres) precisam saber que as opressões que sofrem cotidianamente jea foram sofridas mesmo pelas grandes figuras da ciência, da lógica, da filosofia, das artes, para inspirar-se nelas, entender-se com elas em suas histórias pessoais. Por fim, gostaria de observar que ações e discursos não são coisas desligadas umas das outras. Certamente se pode acusar pessoas de "só falarem e não fazerem", mas se lembrarmos do adágio austiniano de acordo com o qual em muitos casos (em todos?) dizer também é fazer, o texto que estamos há dias saudavelmente discutindo aqui é uma sorte de ato performativo que se soma aos movimentos feministas, e não o contrário. Que ele não seja tão radical quanto se pode desejar, desde perspectivas feministas distintas, não desintegra seu valor e tampouco faz justica à comparação que você deixa sugeria entre ele e campanhas mercadológicas de absorção das peutas feministas para vender camisetas. Um abraço cordial, G. Le mar. 22 oct. 2019 à 11:16, Luiza Ramos <[email protected]> a écrit : > Boa tarde, > > Acompanhei o debate sem me pronunciar pois de fato acho que parecia pouco > profícuo levantar a questão nesse ambiente, no entanto como muitos homens > se pronunciaram aqui sobre a questão da mulher e sobre o feminismo acredito > que posso contribuir um pouco nesse aspecto. > > Sobre a ressignificação dos termos vagabunda e vadia e sobre a marcha das > vadias, convém esclarecer que estas são propostas de grupos que se dizem > feminista mas que estão muito distante das teorias feministas. Como > apontado muitas vezes por estas, a marcha das vadias representa um tipo de > mulher que tem autonomia sobre seu corpo e isto não é o caso de grande > parte das mulheres que sofrem violência sexual e doméstica. Este tipo de > pauta pode acabar reforçando a opressão de grupos de mulheres não-brancas e > não-elitizadas uma que ao pregar liberdade sexual acaba por contribuir > ainda mais para a sexualização do corpo feminino. Por exemplo, este tipo de > discurso raso pode contribuir para jovens meninas se submeterem a dominação > sexual masculina confundindo-a com liberdade. Ainda, tais palavras fazem > parte de um vocabulário colonialista e patriarcal que, na opinião de > feministas sérias como Grada Kilomba, deve sim ser condenado e esvaziado de > importância. Conservadorismo, nesse caso, me parece perpetuar tal > vocabulário. > > Finalmente, esse tipo de questão nada tem a ver com o problema de > desumanização sofrido pelas mulheres cientistas ao longo do tempo, > incluindo Marie Curie, que como disse o professor Walter não se interessou > em qualificar-se como vagabunda em nenhum momento mas sim ocupou-se de > contribuir para o avanço cientifico e se colocou como modelo para futuras > cientistas. Esse tipo de contribuição parece muito mais efetivo que > qualquer discurso panfletário e sensacionalista, assim, entrando no mérito > do texto, como pesquisadora e feminista que me considero, acredito que o > texto é ruim nesta perspectiva. O que há ali é uma apropriação da opressão > sofrida por Marie Curie para uma pauta superficial e rasteira do feminismo > suave do nosso tempo. Tal feminismo suave nada contribui para as discussões > relevantes que precisam ser tratadas e reforçam o tipo de discurso raso ( a > palavra machista aparece quatro vezes no texto) que vemos hoje explorado > pela grande mídia e marcas, quando encontramos camisetas de marcas que > exploram trabalho escravo utilizando esses chavões. O texto não funciona > como divulgação científica pois não aborda nada efetivo do trabalho de > Marie e também não funciona combatendo opressões, pois está no lugar comum > da vitimização e redução do discurso à uma ideologia particular. Conheci > pessoalmente a autora quando veio à Brasília dar uma palestra sobre > Mulheres na Ciência e já na época fiquei decepcionada com a > superficialidade da palestra e da falta de interesse da mesma em conversar > com as estudantes ali presente. Muitas mulheres tem contribuido para a > inclusão de outras mulheres no meio científico mas o fazem com mudanças > locais e ações ao invés de discursos. > > Atenciosamente, > Luiza Ramos > > Em seg, 21 de out de 2019 às 15:23, Abílio <[email protected]> > escreveu: > >> Colegas, >> >> Estou chegando atrasado na conversa. >> Entendo que o titulo possa ser desconfortavel para algumas pessoas. >> Pra mim nao é nem um pouco. >> >> Mas o txt é otimo e muitissimo oportuno nos tempos da burrice e >> cretinice que grassam no nosso pobre pais. >> Sim, hoje, no Brasil, vagabunda - assim como viado, esquerdopata, >> comunista etc. - tornaram-se elogios. >> >> Abraços >> >> Abilio >> >> On Sun, 20 Oct 2019 at 23:50, Joao Marcos <[email protected]> wrote: >> > >> > Poderíamos talvez defender que o estudo da argumentação, e de certa >> > forma também a interpretação de textos, caem sob os tópicos de >> > interesse desta lista. >> > >> > >> > [[ >> > Dou por aceito que não precisamos defender Marie Curie. Albert >> > Einstein disse o que havia a dizer, em uma carta que enviou a ela em >> > 23 de novembro de 1911, logo depois de Curie retornar da Suécia com >> > seu segundo prêmio Nobel para encontrar seu nome denegrido pela >> > imprensa e sua casa apedrejada pela furiosa turba de conservadores de >> > extrema-direita: >> > >> > "If the rabble continues to occupy itself with you, then simply don’t >> > read that hogwash, but rather leave it to the reptile for whom it has >> > been fabricated." >> > https://einsteinpapers.press.princeton.edu/vol8-trans/34 >> > ]] >> > >> > >> > O que eu observei até agora, no debate nesta lista sobre o texto da >> > física Marcia Barbosa, foi: >> > >> > (1) A menção a um texto de uma cientista relatando um bem conhecido >> > caso de misoginia na ciência. O texto foi desqualificado antes mesmo >> > de ser lido devido ao uso do termo "vagabunda" no título. >> > Aparentemente o objetivo principal daquela menção foi o emprestar >> > força adicional à desqualificação de outro texto ---absolutamente >> > desastroso--- publicado no mesmo blog, escrito por outro autor, sobre >> > um tema completamente diverso. >> > >> > (2) O texto já citado, que diz respeito ao empoderamento feminino, foi >> > acusado, das formas mais variadas, de "MAU gosto". Um dos motivos >> > principais, mais uma vez, parece ter sido o uso ---essencial--- da >> > palavra "vagabunda". Os outros motivos apontados são um pouco mais >> > difusos, e mais ou menos "criativos". >> > >> > (3) Supostamente haveria no dito texto uma proposta de ressignificação >> > semântica pela qual "vagabunda" passaria a ser um elogio. >> > >> > Não tenho o que dizer sobre o ponto (1), e já disse o que tinha para >> > dizer sobre o ponto (2). Eu próprio não teria hesitado em escrever um >> > texto com esta palavra no título, fosse ela essencial ao conteúdo. >> > Quanto ao ponto (3), se houvesse uma real tentativa de >> > *ressignificação* das expressões "vagabundas" e "vadias", como >> > aconteceu por exemplo com os termos "gay" e "queer", então seria de se >> > supor que as mulheres hoje _desejassem_ ser tratadas por "vagabundas" >> > ou "vadias". Não me parece que seja o caso ---ou pelo menos não >> > ainda, pois a linguagem tem sua dinâmica. Resta-me, assim, a opção da >> > *ironia* (ou, no mínimo, da estratégia de chamar a atenção pela via da >> > *polêmica*), que afinal me parece ter sido bem praticada pela autora >> > do texto. >> > >> > >> > [[ >> > Sobre a apropriação por parte das mulheres dos termos opressores _para >> > tentar revalorizá-los_ (como no mote "se ser livre é ser vadia, então >> > somos todas vadias") encontrei um texto recente interessante, escrito >> > da perspectiva da Análise Dialógica do Discurso [Bakhtin]: >> > >> http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-026X2019000200209 >> > Como disse um colega, portanto, pode haver, também neste ponto, >> > "espaço interessante para reflexão". >> > ]] >> > >> > >> > Ainda sobre as mensagens anteriores dos colegas: >> > >> > > Talvez ela não saiba das histórias das"jovens polacas". Se sabe, é >> pior ainda. >> > > É de todo modo uma referência infeliz, que me faz não gostar da >> notinha. >> > >> > As "jovens polacas" jamais foram referidas no texto. Parece de todo >> > modo irrelevante saber se a autora do texto conhece a expressão, ou >> > mesmo se Marie Curie teria sido assim chamada no Brasil, como sem >> > dúvida teriam feito naquela época os tabloides franceses. >> > >> > >> > [[ >> > Um dos _menos_ virulentos ataques a Marie Curie foi publicado no Le >> > Figaro (o jornal diário mais antigo da França), em 26 de novembro de >> > 1910: >> > "Nous avons déjà plus de femmes de lettres qu’un pays civilisé ne peut >> > supporter. Que les dieux favorables nous épargnent une génération de >> > femmes de science!" >> > https://polonia.histegeo.org/Curie_Academie.swf (p.7) >> > >> > A propósito, esta é a realidade que aponta modernamente o mesmo jornal >> > (conservador e de direita): >> > >> http://madame.lefigaro.fr/societe/les-europeens-estiment-que-la-science-a-haut-niveau-nest-pas-faite-pour-les-femmes-160915 >> > (curiosamente, enquanto o artigo de 1910 deplora a possibilidade de >> > prêmios científicos concedidos por "júris femininos", o artigo de 2015 >> > diz respeito a uma sondagem promovida pela fundação L'Oréal, que hoje >> > patrocina tais prêmios) >> > ]] >> > >> > >> > > não tem essa de politicamente ressignificar o preconceito que fez uma >> vítima ilustre >> > >> > O _preconceito_ certamente não foi ressignificado pela autora do >> > texto. Quando muito poderíamos dizer que a palavra que expressa esse >> > preconceito foi usada como uma provocação. E, claramente, a >> > provocação funcionou. >> > >> > Abraçxs, >> > Joao Marcos >> > >> > >> > [[ >> > Como disse o filósofo da linguagem Humpty Dumpty, citado também no >> > artigo feminista cujo link se encontra acima, e grande influência de >> > Ludwig Wittgenstein: >> > >> > 'When I use a word,' Humpty Dumpty said in rather a scornful tone, 'it >> > means just what I choose it to mean — neither more nor less.' >> > 'The question is,' said Alice, 'whether you can make words mean so >> > many different things.' ' >> > The question is,' said Humpty Dumpty, 'which is to be master — that's >> all.' >> > ]] >> > >> > >> > PS: Walter, tendo em vista que você era amigo pessoal da Hilda Hilst, >> > surpreende-me sobremaneira que você agora assuma esta postura >> > "linguística" conservadora... >> > >> > -- >> > Você está recebendo esta mensagem porque se inscreveu no grupo >> "LOGICA-L" dos Grupos do Google. >> > Para cancelar inscrição nesse grupo e parar de receber e-mails dele, >> envie um e-mail para [email protected]. >> > Para ver esta discussão na web, acesse >> https://groups.google.com/a/dimap.ufrn.br/d/msgid/logica-l/CAO6j_LgcjMEs4GtbvpsratVtU88BFUv2or%3DX%3DCQzumyON1fVgw%40mail.gmail.com >> . >> >> -- >> Você está recebendo esta mensagem porque se inscreveu no grupo "LOGICA-L" >> dos Grupos do Google. >> Para cancelar inscrição nesse grupo e parar de receber e-mails dele, >> envie um e-mail para [email protected]. >> Para ver esta discussão na web, acesse >> https://groups.google.com/a/dimap.ufrn.br/d/msgid/logica-l/CALtFD21KGVO_PFhHZVB3ZgBxr6mY4uJheGcHuUm7Xt3OftqqAw%40mail.gmail.com >> . >> > -- > Você recebeu essa mensagem porque está inscrito no grupo "LOGICA-L" dos > Grupos do Google. > Para cancelar inscrição nesse grupo e parar de receber e-mails dele, envie > um e-mail para [email protected]. > Para ver essa discussão na Web, acesse > https://groups.google.com/a/dimap.ufrn.br/d/msgid/logica-l/CABp6FzLkvdEcdQizphGLJ7ybuKk4wh1w8Fy5O1hP70hd5on3hA%40mail.gmail.com > <https://groups.google.com/a/dimap.ufrn.br/d/msgid/logica-l/CABp6FzLkvdEcdQizphGLJ7ybuKk4wh1w8Fy5O1hP70hd5on3hA%40mail.gmail.com?utm_medium=email&utm_source=footer> > . > -- Gisele Dalva Secco UFSM/Brasil +55 55 3220 8440 -- Você está recebendo esta mensagem porque se inscreveu no grupo "LOGICA-L" dos Grupos do Google. 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