É, se o título não fosse ironia, então a Marcia Barbosa estaria xingando a 
Marie Curie. 
Como ninguém acreditou desde o início que ela estava insultando a Marie Curie,
estava óbvio desde o início que era uma ironia. 
E disso segue que é uma ironia banal: a alternativa seria um xingamento, o que 
está descartado desde o início. 
Nesse caso, nenhuma conclusão interessante sai da ironia.

[No título, ela ainda valoriza o Nobel, para fazer um contraponto com o termo 
ofensivo, Nobel que ela mesma qualifica de machista por desconvidar Curie da 
cerimônia. Seria melhor contrapor com o que a Curie fez, não com o título.]

Se a conclusão não fosse uma ironia, então ela estaria propondo a 
ressignificação do termo que carrega o preconceito.
Como não parece ser o caso - não se pode ressignificar todos os insultos, o que 
se deve é condenar -
então é uma ironia e "vagabunda" não é elogio. Claro que não é mesmo. 
De novo, um ironia banal. Nada de muito bom segue daqui também. 

Suponho que a polêmica que está ocorrendo aqui é em torno da tese:

-  É bom usar uma linguagem violenta, racista, sexista, o que for, para fazer 
referência a quem sofreu o preconceito, desde que com ironia (banal). Tudo bem 
em dizer “o macaco que ganhou Nobel “ ironicamente, de acordo com essa tese.

Realmente não concordo com essa tese, acho muito baixo e ofensivo com quem 
sofreu o preconceito e que nada é ganho com isso. O termo carrega um estigma 
que insulta. Ficaria feliz de analisar o argumento a favor desse tese, não 
encontrei um. 

Eu diria que muito bom é o Sócrates usando ironia para mostrar que as pessoas 
não sabem o que estão dizendo sem baixar o nível. Nesse artigo não vi uso muito 
bom de ironia. 


Abraço 



> On Sun, Oct 20, 2019 at 11:50 PM Joao Marcos <[email protected]> wrote:
> Poderíamos talvez defender que o estudo da argumentação, e de certa
> forma também a interpretação de textos, caem sob os tópicos de
> interesse desta lista.
> 
> 
> [[
> Dou por aceito que não precisamos defender Marie Curie.  Albert
> Einstein disse o que havia a dizer, em uma carta que enviou a ela em
> 23 de novembro de 1911, logo depois de Curie retornar da Suécia com
> seu segundo prêmio Nobel para encontrar seu nome denegrido pela
> imprensa e sua casa apedrejada pela furiosa turba de conservadores de
> extrema-direita:
> 
> "If the rabble continues to occupy itself with you, then simply don’t
> read that hogwash, but rather leave it to the reptile for whom it has
> been fabricated."
> https://einsteinpapers.press.princeton.edu/vol8-trans/34
> ]]
> 
> 
> O que eu observei até agora, no debate nesta lista sobre o texto da
> física Marcia Barbosa, foi:
> 
> (1) A menção a um texto de uma cientista relatando um bem conhecido
> caso de misoginia na ciência.  O texto foi desqualificado antes mesmo
> de ser lido devido ao uso do termo "vagabunda" no título.
> Aparentemente o objetivo principal daquela menção foi o emprestar
> força adicional à desqualificação de outro texto ---absolutamente
> desastroso--- publicado no mesmo blog, escrito por outro autor, sobre
> um tema completamente diverso.
> 
> (2) O texto já citado, que diz respeito ao empoderamento feminino, foi
> acusado, das formas mais variadas, de "MAU gosto".  Um dos motivos
> principais, mais uma vez, parece ter sido o uso ---essencial--- da
> palavra "vagabunda".  Os outros motivos apontados são um pouco mais
> difusos, e mais ou menos "criativos".
> 
> (3) Supostamente haveria no dito texto uma proposta de ressignificação
> semântica pela qual "vagabunda" passaria a ser um elogio.
> 
> Não tenho o que dizer sobre o ponto (1), e já disse o que tinha para
> dizer sobre o ponto (2).  Eu próprio não teria hesitado em escrever um
> texto com esta palavra no título, fosse ela essencial ao conteúdo.
> Quanto ao ponto (3), se houvesse uma real tentativa de
> *ressignificação* das expressões "vagabundas" e "vadias", como
> aconteceu por exemplo com os termos "gay" e "queer", então seria de se
> supor que as mulheres hoje _desejassem_ ser tratadas por "vagabundas"
> ou "vadias".  Não me parece que seja o caso ---ou pelo menos não
> ainda, pois a linguagem tem sua dinâmica.  Resta-me, assim, a opção da
> *ironia* (ou, no mínimo, da estratégia de chamar a atenção pela via da
> *polêmica*), que afinal me parece ter sido bem praticada pela autora
> do texto.
> 
> 
> [[
> Sobre a apropriação por parte das mulheres dos termos opressores _para
> tentar revalorizá-los_ (como no mote "se ser livre é ser vadia, então
> somos todas vadias") encontrei um texto recente interessante, escrito
> da perspectiva da Análise Dialógica do Discurso [Bakhtin]:
> http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-026X2019000200209
> Como disse um colega, portanto, pode haver, também neste ponto,
> "espaço interessante para reflexão".
> ]]
> 
> 
> Ainda sobre as mensagens anteriores dos colegas:
> 
> > Talvez ela não saiba das histórias  das"jovens polacas". Se sabe, é  pior 
> > ainda.
> > É  de todo modo uma referência infeliz, que me faz não gostar da notinha.
> 
> As "jovens polacas" jamais foram referidas no texto.  Parece de todo
> modo irrelevante saber se a autora do texto conhece a expressão, ou
> mesmo se Marie Curie teria sido assim chamada no Brasil, como sem
> dúvida teriam feito naquela época os tabloides franceses.
> 
> 
> [[
> Um dos _menos_ virulentos ataques a Marie Curie foi publicado no Le
> Figaro (o jornal diário mais antigo da França), em 26 de novembro de
> 1910:
> "Nous avons déjà plus de femmes de lettres qu’un pays civilisé ne peut
> supporter. Que les dieux favorables nous épargnent une génération de
> femmes de science!"
> https://polonia.histegeo.org/Curie_Academie.swf (p.7)
> 
> A propósito, esta é a realidade que aponta modernamente o mesmo jornal
> (conservador e de direita):
> http://madame.lefigaro.fr/societe/les-europeens-estiment-que-la-science-a-haut-niveau-nest-pas-faite-pour-les-femmes-160915
> (curiosamente, enquanto o artigo de 1910 deplora a possibilidade de
> prêmios científicos concedidos por "júris femininos", o artigo de 2015
> diz respeito a uma sondagem promovida pela fundação L'Oréal, que hoje
> patrocina tais prêmios)
> ]]
> 
> 
> > não tem essa de politicamente ressignificar o preconceito que fez uma 
> > vítima ilustre
> 
> O _preconceito_ certamente não foi ressignificado pela autora do
> texto.  Quando muito poderíamos dizer que a palavra que expressa esse
> preconceito foi usada como uma provocação.  E, claramente, a
> provocação funcionou.
> 
> Abraçxs,
> Joao Marcos
> 
> 
> [[
> Como disse o filósofo da linguagem Humpty Dumpty, citado também no
> artigo feminista cujo link se encontra acima, e grande influência de
> Ludwig Wittgenstein:
> 
> 'When I use a word,' Humpty Dumpty said in rather a scornful tone, 'it
> means just what I choose it to mean — neither more nor less.'
> 'The question is,' said Alice, 'whether you can make words mean so
> many different things.' '
> The question is,' said Humpty Dumpty, 'which is to be master — that's all.'
> ]]
> 
> 
> PS: Walter, tendo em vista que você era amigo pessoal da Hilda Hilst,
> surpreende-me sobremaneira que você agora assuma esta postura
> "linguística" conservadora...
> 
> -- 
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> Grupos do Google.
> Para cancelar inscrição nesse grupo e parar de receber e-mails dele, envie um 
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