Rodrigo, Eu não sou a pessoa mais indicada para defender a abordagem do artigo. 
No entanto, por acreditar que tem bons méritos, vou fazer algum esforço nesse 
sentido. A palavra "vagabunda" realmente tem caráter ofensivo. No entanto, 
atribuída a homens, costuma significar indisposição para o trabalho. Dita sobre 
mulheres, normalmente insinua que a mulher é uma prostituta. Historicamente, as 
civilizações relegaram às mulheres o papel de cuidar da casa e da prole. 
Qualquer outro espaço, destacadamente os tidos como privilegiados, foram vistos 
como tipicamente masculinos. As diferenças mais evidentes entre homens e 
mulheres são anatômicas e sexuais. De forma simbólica, essas distinções de 
corpos foram utilizadas para manter as mulheres em situação de inferioridade. 
Um dos principais caminhos explorados foi justamente o de negar direito à 
mulher para usufruir dos prazeres sexuais. Enquanto o homem é frequentemente 
admirado por ser garanhão (o cavalo reprodutor), a mulher égua costuma ser 
vista como simples puta sem valor. Esse é outro exemplo, do qual existem 
inúmeros, de significação diferenciada entre homens e mulheres. Voltando ao 
assunto,  dizer que alguma mulher é vagabunda é agressivo sim, mas em um 
sentido muito diferente do que deprecia um homem como vagabundo. O que me 
parece acontecer quando o movimento feminista utiliza palavras como "vadia" e 
"vagabunda" em referência às suas heroínas é destacar essa assimetria. O que se 
quer destacar é que, se quiserem, mulheres podem e devem ocupar os mesmos 
espaços que os homens ocupam. Enquanto houver ambiente de tolerância para 
condutas masculinas que são fundamento para agressão de mulheres, a igualdade 
está faltando. Se é para condenar a conduta, elas devem ser condenadas com a 
mesma força para os dois lados. A ideias é a de que mulheres podem ser tão  
"garanhonas" quanto homens. Se, apesar disso, só elas são vistas como 
vagabundas, há algo errado nessa noção de vadiagem.Os símbolos que mantêm as 
mulheres em espaço subalterno são sutis. Lógicos costumamos gostar de símbolos 
mais literaos, mas a mente humana tem uns viesses estranhos e trabalham muito 
com figurações de outra natureza. São figuras assim que atuam partindo das 
diferenças anatômicas e impedindo que mulheres estejam em espaços mais nobres. 
E é a falta de mulheres nesses espaços que o discurso que debatemos nesses 
e-mails pretende corrigir. Se os símbolos que retraem as mulheres tem conteúdo 
sexual, se é assim que opera seu mecanismo nefasto, que isso fique evidente. A 
linguagem agressiva choca quanto a Marie Curie, mas choraria do mesmo modo se 
fosse dirigida a um homem?Sinceramente, não sei se a estratégia do choque é a 
melhor. Pessoalmente, eu prefiro a comunicação menos violenta possível. No 
entanto, o choque tem sido utilizado como crítica há muito tempo,  e é preciso 
tê-lo em sua devida perspectiva. Afinal, estou defendendo uma estratégia que 
não é a minha, e esse tipo de defesa não costuma ser a melhor. No entanto, eu o 
faço com a boa intenção de tentar esclarecer algo que me parece estar confuso. 
Quero frisar a boa intenção. Não estou querendo dizer que ninguém é bobo ou mal 
intencionado (sobretudo você, Rodrigo cuja qualidade como orientador busco 
ressaltar sempre que possível, como você bem sabe).Apenas acho que se trata de 
um debate importante e que as considerações acima podem ser úteis. Se, por fim, 
não forem, que todos sigamos com nossas crenças e valores em busca de melhorias 
científicas e morais. Dos que conheço deste grupo, os bem intencionados 
claramente predominam. E que o bom debate sempre os fortaleça. Abraços 
amistosos.Enviado do meu smartphone Samsung Galaxy.
-------- Mensagem original --------De : Rodrigo Freire <[email protected]> 
Data: 21/10/2019  07:32  (GMT-03:00) Para: Joao Marcos <[email protected]> Cc: 
Lista acadêmica brasileira dos profissionais e estudantes da área de LOGICA 
<[email protected]> Assunto: Re:  [Logica-l] Criticar mal gosto não é 
"conservadorismo " É, se o título não fosse ironia, então a Marcia Barbosa 
estaria xingando a Marie Curie. Como ninguém acreditou desde o início que ela 
estava insultando a Marie Curie,estava óbvio desde o início que era uma ironia. 
E disso segue que é uma ironia banal: a alternativa seria um xingamento, o que 
está descartado desde o início. Nesse caso, nenhuma conclusão interessante sai 
da ironia.[No título, ela ainda valoriza o Nobel, para fazer um contraponto com 
o termo ofensivo, Nobel que ela mesma qualifica de machista por desconvidar 
Curie da cerimônia. Seria melhor contrapor com o que a Curie fez, não com o 
título.]Se a conclusão não fosse uma ironia, então ela estaria propondo a 
ressignificação do termo que carrega o preconceito.Como não parece ser o caso - 
não se pode ressignificar todos os insultos, o que se deve é condenar -então é 
uma ironia e "vagabunda" não é elogio. Claro que não é mesmo. De novo, um 
ironia banal. Nada de muito bom segue daqui também. Suponho que a polêmica que 
está ocorrendo aqui é em torno da tese:-  É bom usar uma linguagem violenta, 
racista, sexista, o que for, para fazer referência a quem sofreu o preconceito, 
desde que com ironia (banal). Tudo bem em dizer “o macaco que ganhou Nobel “ 
ironicamente, de acordo com essa tese.Realmente não concordo com essa tese, 
acho muito baixo e ofensivo com quem sofreu o preconceito e que nada é ganho 
com isso. O termo carrega um estigma que insulta. Ficaria feliz de analisar o 
argumento a favor desse tese, não encontrei um. Eu diria que muito bom é o 
Sócrates usando ironia para mostrar que as pessoas não sabem o que estão 
dizendo sem baixar o nível. Nesse artigo não vi uso muito bom de ironia. Abraço 
On Sun, Oct 20, 2019 at 11:50 PM Joao Marcos <[email protected]> 
wrote:Poderíamos talvez defender que o estudo da argumentação, e de certa
forma também a interpretação de textos, caem sob os tópicos de
interesse desta lista.


[[
Dou por aceito que não precisamos defender Marie Curie.  Albert
Einstein disse o que havia a dizer, em uma carta que enviou a ela em
23 de novembro de 1911, logo depois de Curie retornar da Suécia com
seu segundo prêmio Nobel para encontrar seu nome denegrido pela
imprensa e sua casa apedrejada pela furiosa turba de conservadores de
extrema-direita:

"If the rabble continues to occupy itself with you, then simply don’t
read that hogwash, but rather leave it to the reptile for whom it has
been fabricated."
https://einsteinpapers.press.princeton.edu/vol8-trans/34
]]


O que eu observei até agora, no debate nesta lista sobre o texto da
física Marcia Barbosa, foi:

(1) A menção a um texto de uma cientista relatando um bem conhecido
caso de misoginia na ciência.  O texto foi desqualificado antes mesmo
de ser lido devido ao uso do termo "vagabunda" no título.
Aparentemente o objetivo principal daquela menção foi o emprestar
força adicional à desqualificação de outro texto ---absolutamente
desastroso--- publicado no mesmo blog, escrito por outro autor, sobre
um tema completamente diverso.

(2) O texto já citado, que diz respeito ao empoderamento feminino, foi
acusado, das formas mais variadas, de "MAU gosto".  Um dos motivos
principais, mais uma vez, parece ter sido o uso ---essencial--- da
palavra "vagabunda".  Os outros motivos apontados são um pouco mais
difusos, e mais ou menos "criativos".

(3) Supostamente haveria no dito texto uma proposta de ressignificação
semântica pela qual "vagabunda" passaria a ser um elogio.

Não tenho o que dizer sobre o ponto (1), e já disse o que tinha para
dizer sobre o ponto (2).  Eu próprio não teria hesitado em escrever um
texto com esta palavra no título, fosse ela essencial ao conteúdo.
Quanto ao ponto (3), se houvesse uma real tentativa de
*ressignificação* das expressões "vagabundas" e "vadias", como
aconteceu por exemplo com os termos "gay" e "queer", então seria de se
supor que as mulheres hoje _desejassem_ ser tratadas por "vagabundas"
ou "vadias".  Não me parece que seja o caso ---ou pelo menos não
ainda, pois a linguagem tem sua dinâmica.  Resta-me, assim, a opção da
*ironia* (ou, no mínimo, da estratégia de chamar a atenção pela via da
*polêmica*), que afinal me parece ter sido bem praticada pela autora
do texto.


[[
Sobre a apropriação por parte das mulheres dos termos opressores _para
tentar revalorizá-los_ (como no mote "se ser livre é ser vadia, então
somos todas vadias") encontrei um texto recente interessante, escrito
da perspectiva da Análise Dialógica do Discurso [Bakhtin]:
http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-026X2019000200209
Como disse um colega, portanto, pode haver, também neste ponto,
"espaço interessante para reflexão".
]]


Ainda sobre as mensagens anteriores dos colegas:

> Talvez ela não saiba das histórias  das"jovens polacas". Se sabe, é  pior 
> ainda.
> É  de todo modo uma referência infeliz, que me faz não gostar da notinha.

As "jovens polacas" jamais foram referidas no texto.  Parece de todo
modo irrelevante saber se a autora do texto conhece a expressão, ou
mesmo se Marie Curie teria sido assim chamada no Brasil, como sem
dúvida teriam feito naquela época os tabloides franceses.


[[
Um dos _menos_ virulentos ataques a Marie Curie foi publicado no Le
Figaro (o jornal diário mais antigo da França), em 26 de novembro de
1910:
"Nous avons déjà plus de femmes de lettres qu’un pays civilisé ne peut
supporter. Que les dieux favorables nous épargnent une génération de
femmes de science!"
https://polonia.histegeo.org/Curie_Academie.swf (p.7)

A propósito, esta é a realidade que aponta modernamente o mesmo jornal
(conservador e de direita):
http://madame.lefigaro.fr/societe/les-europeens-estiment-que-la-science-a-haut-niveau-nest-pas-faite-pour-les-femmes-160915
(curiosamente, enquanto o artigo de 1910 deplora a possibilidade de
prêmios científicos concedidos por "júris femininos", o artigo de 2015
diz respeito a uma sondagem promovida pela fundação L'Oréal, que hoje
patrocina tais prêmios)
]]


> não tem essa de politicamente ressignificar o preconceito que fez uma vítima 
> ilustre

O _preconceito_ certamente não foi ressignificado pela autora do
texto.  Quando muito poderíamos dizer que a palavra que expressa esse
preconceito foi usada como uma provocação.  E, claramente, a
provocação funcionou.

Abraçxs,
Joao Marcos


[[
Como disse o filósofo da linguagem Humpty Dumpty, citado também no
artigo feminista cujo link se encontra acima, e grande influência de
Ludwig Wittgenstein:

'When I use a word,' Humpty Dumpty said in rather a scornful tone, 'it
means just what I choose it to mean — neither more nor less.'
'The question is,' said Alice, 'whether you can make words mean so
many different things.' '
The question is,' said Humpty Dumpty, 'which is to be master — that's all.'
]]


PS: Walter, tendo em vista que você era amigo pessoal da Hilda Hilst,
surpreende-me sobremaneira que você agora assuma esta postura
"linguística" conservadora...

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