Boa tarde, Acompanhei o debate sem me pronunciar pois de fato acho que parecia pouco profícuo levantar a questão nesse ambiente, no entanto como muitos homens se pronunciaram aqui sobre a questão da mulher e sobre o feminismo acredito que posso contribuir um pouco nesse aspecto.
Sobre a ressignificação dos termos vagabunda e vadia e sobre a marcha das vadias, convém esclarecer que estas são propostas de grupos que se dizem feminista mas que estão muito distante das teorias feministas. Como apontado muitas vezes por estas, a marcha das vadias representa um tipo de mulher que tem autonomia sobre seu corpo e isto não é o caso de grande parte das mulheres que sofrem violência sexual e doméstica. Este tipo de pauta pode acabar reforçando a opressão de grupos de mulheres não-brancas e não-elitizadas uma que ao pregar liberdade sexual acaba por contribuir ainda mais para a sexualização do corpo feminino. Por exemplo, este tipo de discurso raso pode contribuir para jovens meninas se submeterem a dominação sexual masculina confundindo-a com liberdade. Ainda, tais palavras fazem parte de um vocabulário colonialista e patriarcal que, na opinião de feministas sérias como Grada Kilomba, deve sim ser condenado e esvaziado de importância. Conservadorismo, nesse caso, me parece perpetuar tal vocabulário. Finalmente, esse tipo de questão nada tem a ver com o problema de desumanização sofrido pelas mulheres cientistas ao longo do tempo, incluindo Marie Curie, que como disse o professor Walter não se interessou em qualificar-se como vagabunda em nenhum momento mas sim ocupou-se de contribuir para o avanço cientifico e se colocou como modelo para futuras cientistas. Esse tipo de contribuição parece muito mais efetivo que qualquer discurso panfletário e sensacionalista, assim, entrando no mérito do texto, como pesquisadora e feminista que me considero, acredito que o texto é ruim nesta perspectiva. O que há ali é uma apropriação da opressão sofrida por Marie Curie para uma pauta superficial e rasteira do feminismo suave do nosso tempo. Tal feminismo suave nada contribui para as discussões relevantes que precisam ser tratadas e reforçam o tipo de discurso raso ( a palavra machista aparece quatro vezes no texto) que vemos hoje explorado pela grande mídia e marcas, quando encontramos camisetas de marcas que exploram trabalho escravo utilizando esses chavões. O texto não funciona como divulgação científica pois não aborda nada efetivo do trabalho de Marie e também não funciona combatendo opressões, pois está no lugar comum da vitimização e redução do discurso à uma ideologia particular. Conheci pessoalmente a autora quando veio à Brasília dar uma palestra sobre Mulheres na Ciência e já na época fiquei decepcionada com a superficialidade da palestra e da falta de interesse da mesma em conversar com as estudantes ali presente. Muitas mulheres tem contribuido para a inclusão de outras mulheres no meio científico mas o fazem com mudanças locais e ações ao invés de discursos. Atenciosamente, Luiza Ramos Em seg, 21 de out de 2019 às 15:23, Abílio <[email protected]> escreveu: > Colegas, > > Estou chegando atrasado na conversa. > Entendo que o titulo possa ser desconfortavel para algumas pessoas. > Pra mim nao é nem um pouco. > > Mas o txt é otimo e muitissimo oportuno nos tempos da burrice e > cretinice que grassam no nosso pobre pais. > Sim, hoje, no Brasil, vagabunda - assim como viado, esquerdopata, > comunista etc. - tornaram-se elogios. > > Abraços > > Abilio > > On Sun, 20 Oct 2019 at 23:50, Joao Marcos <[email protected]> wrote: > > > > Poderíamos talvez defender que o estudo da argumentação, e de certa > > forma também a interpretação de textos, caem sob os tópicos de > > interesse desta lista. > > > > > > [[ > > Dou por aceito que não precisamos defender Marie Curie. Albert > > Einstein disse o que havia a dizer, em uma carta que enviou a ela em > > 23 de novembro de 1911, logo depois de Curie retornar da Suécia com > > seu segundo prêmio Nobel para encontrar seu nome denegrido pela > > imprensa e sua casa apedrejada pela furiosa turba de conservadores de > > extrema-direita: > > > > "If the rabble continues to occupy itself with you, then simply don’t > > read that hogwash, but rather leave it to the reptile for whom it has > > been fabricated." > > https://einsteinpapers.press.princeton.edu/vol8-trans/34 > > ]] > > > > > > O que eu observei até agora, no debate nesta lista sobre o texto da > > física Marcia Barbosa, foi: > > > > (1) A menção a um texto de uma cientista relatando um bem conhecido > > caso de misoginia na ciência. O texto foi desqualificado antes mesmo > > de ser lido devido ao uso do termo "vagabunda" no título. > > Aparentemente o objetivo principal daquela menção foi o emprestar > > força adicional à desqualificação de outro texto ---absolutamente > > desastroso--- publicado no mesmo blog, escrito por outro autor, sobre > > um tema completamente diverso. > > > > (2) O texto já citado, que diz respeito ao empoderamento feminino, foi > > acusado, das formas mais variadas, de "MAU gosto". Um dos motivos > > principais, mais uma vez, parece ter sido o uso ---essencial--- da > > palavra "vagabunda". Os outros motivos apontados são um pouco mais > > difusos, e mais ou menos "criativos". > > > > (3) Supostamente haveria no dito texto uma proposta de ressignificação > > semântica pela qual "vagabunda" passaria a ser um elogio. > > > > Não tenho o que dizer sobre o ponto (1), e já disse o que tinha para > > dizer sobre o ponto (2). Eu próprio não teria hesitado em escrever um > > texto com esta palavra no título, fosse ela essencial ao conteúdo. > > Quanto ao ponto (3), se houvesse uma real tentativa de > > *ressignificação* das expressões "vagabundas" e "vadias", como > > aconteceu por exemplo com os termos "gay" e "queer", então seria de se > > supor que as mulheres hoje _desejassem_ ser tratadas por "vagabundas" > > ou "vadias". Não me parece que seja o caso ---ou pelo menos não > > ainda, pois a linguagem tem sua dinâmica. Resta-me, assim, a opção da > > *ironia* (ou, no mínimo, da estratégia de chamar a atenção pela via da > > *polêmica*), que afinal me parece ter sido bem praticada pela autora > > do texto. > > > > > > [[ > > Sobre a apropriação por parte das mulheres dos termos opressores _para > > tentar revalorizá-los_ (como no mote "se ser livre é ser vadia, então > > somos todas vadias") encontrei um texto recente interessante, escrito > > da perspectiva da Análise Dialógica do Discurso [Bakhtin]: > > > http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-026X2019000200209 > > Como disse um colega, portanto, pode haver, também neste ponto, > > "espaço interessante para reflexão". > > ]] > > > > > > Ainda sobre as mensagens anteriores dos colegas: > > > > > Talvez ela não saiba das histórias das"jovens polacas". Se sabe, é > pior ainda. > > > É de todo modo uma referência infeliz, que me faz não gostar da > notinha. > > > > As "jovens polacas" jamais foram referidas no texto. Parece de todo > > modo irrelevante saber se a autora do texto conhece a expressão, ou > > mesmo se Marie Curie teria sido assim chamada no Brasil, como sem > > dúvida teriam feito naquela época os tabloides franceses. > > > > > > [[ > > Um dos _menos_ virulentos ataques a Marie Curie foi publicado no Le > > Figaro (o jornal diário mais antigo da França), em 26 de novembro de > > 1910: > > "Nous avons déjà plus de femmes de lettres qu’un pays civilisé ne peut > > supporter. Que les dieux favorables nous épargnent une génération de > > femmes de science!" > > https://polonia.histegeo.org/Curie_Academie.swf (p.7) > > > > A propósito, esta é a realidade que aponta modernamente o mesmo jornal > > (conservador e de direita): > > > http://madame.lefigaro.fr/societe/les-europeens-estiment-que-la-science-a-haut-niveau-nest-pas-faite-pour-les-femmes-160915 > > (curiosamente, enquanto o artigo de 1910 deplora a possibilidade de > > prêmios científicos concedidos por "júris femininos", o artigo de 2015 > > diz respeito a uma sondagem promovida pela fundação L'Oréal, que hoje > > patrocina tais prêmios) > > ]] > > > > > > > não tem essa de politicamente ressignificar o preconceito que fez uma > vítima ilustre > > > > O _preconceito_ certamente não foi ressignificado pela autora do > > texto. Quando muito poderíamos dizer que a palavra que expressa esse > > preconceito foi usada como uma provocação. E, claramente, a > > provocação funcionou. > > > > Abraçxs, > > Joao Marcos > > > > > > [[ > > Como disse o filósofo da linguagem Humpty Dumpty, citado também no > > artigo feminista cujo link se encontra acima, e grande influência de > > Ludwig Wittgenstein: > > > > 'When I use a word,' Humpty Dumpty said in rather a scornful tone, 'it > > means just what I choose it to mean — neither more nor less.' > > 'The question is,' said Alice, 'whether you can make words mean so > > many different things.' ' > > The question is,' said Humpty Dumpty, 'which is to be master — that's > all.' > > ]] > > > > > > PS: Walter, tendo em vista que você era amigo pessoal da Hilda Hilst, > > surpreende-me sobremaneira que você agora assuma esta postura > > "linguística" conservadora... > > > > -- > > Você está recebendo esta mensagem porque se inscreveu no grupo > "LOGICA-L" dos Grupos do Google. > > Para cancelar inscrição nesse grupo e parar de receber e-mails dele, > envie um e-mail para [email protected]. > > Para ver esta discussão na web, acesse > https://groups.google.com/a/dimap.ufrn.br/d/msgid/logica-l/CAO6j_LgcjMEs4GtbvpsratVtU88BFUv2or%3DX%3DCQzumyON1fVgw%40mail.gmail.com > . > > -- > Você está recebendo esta mensagem porque se inscreveu no grupo "LOGICA-L" > dos Grupos do Google. > Para cancelar inscrição nesse grupo e parar de receber e-mails dele, envie > um e-mail para [email protected]. > Para ver esta discussão na web, acesse > https://groups.google.com/a/dimap.ufrn.br/d/msgid/logica-l/CALtFD21KGVO_PFhHZVB3ZgBxr6mY4uJheGcHuUm7Xt3OftqqAw%40mail.gmail.com > . > -- Você está recebendo esta mensagem porque se inscreveu no grupo "LOGICA-L" dos Grupos do Google. 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