Bom dia!

Uma historinha do outro lado da moeda...

Uma professora amiga, aqui do meu instituto (IME-UFF), me contou que, uma
vez, a professora dela de análise resolveu ensinar o que é uma função
contínua de maneira a que, ao final da aula, os estudantes entendessem a
definição de continuidade por epsilons e deltas.

Pois bem, ela começou com "uma função é contínua se, e somente se, pode ser
desenhada sem que a gente tire o lápis do papel" (ou algo assim) e foi
pouco a pouco criticando a definição já acordada (não sei reproduzir os
detalhes), mostrando uma série de exemplos que desqualificavam a definição
já obtida, até chegar na definição, digamos, usual.

Esta minha amiga me disse que ficou maravilhada com aquilo tudo e em ver
como uma definição tão não-natural (para ela naquele momento) podia ser
explicada de maneira natural a partir de exemplos cada vez mais
esclarecedores.
Enquanto isso, uma colega que esta do lado dela, virou para ela e disse: se
ela não sabia a definição, deveria ter preparado melhor a aula, para não
confundir a gente com esse monte de exemplos!

abraços,
P

Em qua., 16 de jul. de 2025 às 09:28, Márcio Palmares <
[email protected]> escreveu:

> A melhor exposição que eu conheço sobre esse tema aparece no livro "What
> is Mathematics, Really?", do Reuben Hersh. O autor traça um amplo panorama
> histórico mostrando como o platonismo/realismo deriva quase diretamente da
> religião, e como essa forma sofisticada/disfarçada de religiosidade permeia
> a prática da matemática em todos os níveis, principalmente no
> ensino/difusão dessa ciência... Há um fundamento sociológico, histórico,
> uma inércia cultural, que faz com que, ainda hoje, o expositor de
> matemática (às vezes involuntariamente) reproduza as formas místicas com as
> quais os conteúdos eram embalados no passado, com o fim de preservá-los em
> círculos restritos.
>
> Um exemplo: acho que li no Morris Kline, não lembro mais, que Newton
> escolheu uma forma geométrica clássica, austera, de exposição nos Principia
> Mathematica para afugentar amadores e se ver livre de novas controvérsias
> sobre prioridade... O texto era praticamente ilegível na época..
>
> A forma de exposição "misteriosa", especialmente nas demonstrações,
> difícil de seguir, onde toda referência aos processos heurísticos ou à
> gênese dos conceitos é omitida, é instituída já na Antiguidade e praticada
> especialmente por Arquimedes. Sabe-se, agora, contudo, que Arquimedes tinha
> um "método" de descobertas que envolvia trabalho manual, experimental, algo
> que convinha ocultar, pois todo trabalho manual era relegado aos escravos e
> visto como degradante.
>
> Há uma controvérsia sobre este tema (a maior ou menor influência da
> escravidão na formação desse elitismo)... Alguns autores divergem dessa
> interpretação (eu considero como a mais plausível). Entre as visões
> divergentes, a mais criativa que encontrei foi essa, do Isaac Asimov:
>
> "O PROCESSO DEDUTIVO
>
> Elaborar um corpo de conhecimentos como consequência inevitável de um
> conjunto de axiomas (“dedução”) é um jogo atraente. Os gregos se
> apaixonaram por ele, graças ao sucesso de sua geometria — apaixonaram-se a
> tal ponto que cometeram dois erros graves.
>
> Primeiro, passaram a considerar a dedução como o único meio respeitável de
> se alcançar o conhecimento. Estavam bem conscientes de que, para certos
> tipos de saber, a dedução era inadequada; por exemplo, a distância entre
> Corinto e Atenas não podia ser deduzida a partir de princípios abstratos,
> mas precisava ser medida. Os gregos estavam dispostos a observar a natureza
> quando necessário; no entanto, sempre se envergonhavam dessa necessidade e
> consideravam que o mais elevado tipo de conhecimento era aquele obtido por
> meio da pura atividade mental. Tendiam a subestimar o saber diretamente
> ligado à vida cotidiana. Conta-se que um discípulo de Platão, recebendo
> instruções matemáticas do mestre, acabou perguntando impacientemente: “Mas
> para que serve tudo isso?” Platão, profundamente ofendido, chamou um
> escravo e, ordenando-lhe que desse uma moeda ao aluno, disse: “Agora você
> não precisa mais sentir que sua instrução foi inteiramente inútil.” E, com
> isso, o estudante foi expulso.
>
> Há uma crença muito difundida de que essa visão elevada surgiu da cultura
> grega baseada na escravidão, em que todas as questões práticas eram
> relegadas aos escravizados. Talvez seja verdade, mas inclino-me a pensar
> que os gregos viam a filosofia como um *esporte*, um jogo intelectual.
> Muitas pessoas consideram o amador nos esportes como um cavalheiro
> socialmente superior ao profissional que ganha a vida com isso. Em
> consonância com esse ideal de pureza, tomamos precauções quase ridículas
> para garantir que os competidores nos Jogos Olímpicos estejam livres de
> qualquer mácula de profissionalismo. A racionalização grega para o “culto
> da inutilidade” pode ter tido base semelhante: a ideia de que permitir que
> o conhecimento mundano (como, por exemplo, a distância entre Atenas e
> Corinto) invadisse o pensamento abstrato seria permitir que a imperfeição
> penetrasse no Éden da verdadeira filosofia. Qualquer que tenha sido a
> racionalização, os pensadores gregos foram seriamente limitados por essa
> atitude. A Grécia não foi estéril em contribuições práticas para a
> civilização, mas até mesmo seu grande engenheiro, Arquimedes de Siracusa,
> se recusou a escrever sobre suas invenções e descobertas práticas; para
> manter seu status de amador, divulgava apenas seus feitos em matemática
> pura.
>
> E a falta de interesse nas coisas terrenas — na invenção, na
> experimentação, no estudo da natureza — foi apenas um dos fatores que
> impuseram limites ao pensamento grego. A ênfase dos gregos no estudo
> puramente abstrato e formal — de fato, o próprio sucesso deles na geometria
> — levou-os a um segundo grande erro e, eventualmente, a um beco sem saída."
> (Isaac Asimov, "New Guide to Science", Capítulo 1, "What Is Science?",
> tradução do Chat GPT).
>
>
> Em ter., 15 de jul. de 2025 às 18:09, Eduardo Ochs <[email protected]>
> escreveu:
>
>> Oi todos!
>>
>> Deixa eu fazer umas definições: uma "pessoa Bourbaki" é uma que gosta
>> do estilo Bourbaki e gosta de expôr idéias matemáticas de um jeito bem
>> abstrato, sem exemplos e sem motivação; uma "pessoa não-Bourbaki"
>> prefere incluir exemplos e motivação.
>>
>> Até alguns anos atrás mesmo as pessoas não-Bourbaki precisavam fazer
>> papel de pessoas Boubaki pra conseguirem publicar, mas agora tem sites
>> de preprints e tem blogs, e as pessoas não-Bourbaki conseguem
>> "publicar" textos não-Bourbaki... em geral em formas que não dão
>> diretamente pontos em todos as métricas de produtividade, mas alguns
>> desses textos podem acabar virando artigos-Bourbaki algum dia.
>>
>> É mais fácil a gente aprender a expôr idéias matemáticas num estilo
>> não-Bourbaki "com os outros" do que "sozinhos".
>>
>> > No geral, o que pensam os colegas sobre a forma clássica de
>> > exposição dos avanços matemáticos?
>>
>> Eu detesto o estilo Bourbaki e tou há anos aprendendo técnicas
>> não-Bourbaki de escrever e de pensar - e muitas outras pessoas da
>> lista também. Aliás, algumas já contaram os exemplos preferidos delas
>> de "técnicas não-Bourbaki" que elas aprenderam com os outros... e eu
>> acho que é por aí que a gente tem que começar.
>>
>> Um dos professores que eu mais gostava quando eu tava na graduação em
>> Matemática na PUC-Rio - o Carlos Tomei - usava um monte de técnicas
>> não-Bourbaki, e ele sempre dizia que elas eram parte da cultura oral
>> dos matemáticos aplicados com quem ele tinha estudado, e elas não
>> estavam publicadas em lugar nenhum. Uma das técnicas principais dele
>> era assim: ele começava com um problema bem concreto, que tinha
>> algumas constantes que eram valores simples bem escolhidos, e nesse
>> caso a gente conseguia entender num instante a solução que ele
>> mostrava... e aí ele dizia "e isso vale pra qualquer valor de 200!", e
>> a gente via que a gente podia substituir certas constantes por uma
>> variável e obter uma técnica bem mais geral em que as contas tinham
>> exatamente a mesma estrutura - ou quase - que o caso particular com
>> que a gente tinha começado.
>>
>> Aos poucos eu fui adaptando isso de vários jeitos e encontrando um
>> monte de bons critérios pra escolher os casos simples por onde eu
>> começava, e que eu generalizava depois. Um dos meus exemplos
>> preferidos é parecido com o que o Márcio Palmares mencionou no exemplo
>> dele... pra descobrir como encontrar a distância entre duas retas r e
>> s em R^3 é melhor começar com uma reta r paralela ao eixo x e uma reta
>> s parela ao eixo y, depois a gente permite que a reta s fique torta de
>> um certo jeito, depois a gente permite que ela fique torta de jeitos
>> mais complicados ainda, e depois a gente vai entortando a outra reta
>> aos poucos - e em caso passo a gente chega numa fórmula um pouco mais
>> complicada que a do passo anterior, mas que a gente ainda consegue
>> visualizar o que ela quer dizer.
>>
>> O melhor artigo que eu já escrevi tem um bocado sobre isso,
>>
>>   http://anggtwu.net/math-b.html#2022-md
>>
>> mas não tem quase nada sobre como usar essas técnicas pra Geometria
>> Analítica, pra Cálculo, e pra Estatística Básica...
>>
>>   [[]],
>>     Eduardo Ochs
>>
>>
>> On Tue, 15 Jul 2025 at 11:21, Márcio Palmares <[email protected]>
>> wrote:
>>
>>> Tive um professor de cálculo fora de série... Um dia ele começou uma
>>> aula de cálculo II (início do volume II do Guidorizzi) propondo uma
>>> discussão com a turma sobre de que modo poderíamos determinar a projeção
>>> ortogonal de um vetor u sobre um vetor v... Intuitivamente, parecia óbvio
>>> que a projeção ortogonal seria obtida quando um certo "lambda-u menos v"
>>> tivesse a menor norma possível (ver figura). Ao tratar de escrever essa
>>> norma como função do escalar lambda, vemos que para minimizar a norma basta
>>> derivar a função obtida e verificar qual é o escalar que anula a primeira
>>> derivada...
>>>
>>> Como resultado dessa discussão, aparecem o escalar da "fórmula da
>>> projeção ortogonal" de um vetor sobre outro e, como um brinde, surge a
>>> desigualdade de "Cauchy-Schwarz".
>>>
>>> Nos livros, entretanto (por exemplo, no de Análise do Elon) essa
>>> desigualdade é demonstrada em um passe de mágica: aparece um polinômio
>>> quadrático não se sabe de onde, e uma desigualdade óbvia envolvendo o
>>> discriminante do polinômio é utilizada...
>>>
>>> A sensação que temos ao ler esse tipo de demonstração é tremendamente
>>> frustrante...
>>>
>>> Fiquei pensando: será que os livros podem ser deficitários neste aspecto
>>> e seria dever do professor suplantar a deficiência dos livros?
>>>
>>> O problema é que nem todos os professores têm a disposição de completar
>>> a deficiência dos livros com a exposição da gênese dos conceitos (em
>>> oposição à sua descrição o mais curta possível em uma demonstração).
>>>
>>> (Tive alguns professores que meramente transcreviam o livro-texto no
>>> quadro, mas felizmente foram exceções).
>>>
>>> Obs.: não é necessário que a gênese de certo conceito coincida com sua
>>> gênese histórica. Mesmo uma gênese conceitual "artificial" pode funcionar
>>> muito bem.
>>>
>>> A predominância dessa forma de exposição crua, que prejudica o
>>> aprendizado, tem raízes profundas, e quase certamente deriva do fato de
>>> que, em seus primórdios, o conhecimento matemático deveria estar disponível
>>> apenas para "iniciados". Obscurecer um conceito é uma garantia de
>>> preservação do status do escriba.
>>>
>>> M.
>>>
>>>
>>>
>>> Em terça-feira, 15 de julho de 2025, João Ferrari <[email protected]>
>>> escreveu:
>>>
>>>> Oi João,
>>>> como vai?
>>>>
>>>> Concordo 100% com o teor da thread. Acrescento ainda que uma coisa
>>>> nessa linha que me enfurecia nos meus tempos de graduação era ver esse
>>>> estilo minimal e 'corrido' sendo adotado por livros supostamente didáticos.
>>>> Isto é, além de entender a prova, o aluno tinha que fazer o trabalho de
>>>> detetive/médium para decifrar de onde autores tiraram certos passos
>>>> cruciais que pareciam ter aterrissado no meio da prova---isso quando tais
>>>> passos não eram ocultados sob a maldição do 'isto fica como exercício para
>>>> o leitor'. Acho que essa cultura tem minguado, de maneira geral, e a thread
>>>> captura corretamente essa tendência no que diz respeito à produção de
>>>> artigos.
>>>>
>>>> Ainda no contexto dos livros didáticos: eu até entendo a motivação,
>>>> muito popular na matemática, de fazer o leitor se engajar no conteúdo e
>>>> praticar enquanto lê. Mas penso que muitas vezes autores nem se dão conta
>>>> de que para aquilo se tornar um exercício produtivo, a pessoa que está
>>>> lendo precisa ter um bom arcabouço já solidificado na cabeça. Isso é
>>>> particularmente contraproducente no caso de quem se aventura por conta
>>>> própria na área, como foi o meu caso, inicialmente. Muitas vezes, a
>>>> impressão que eu tinha era de que você precisava já saber do conteúdo antes
>>>> de ler.
>>>>
>>>> A propósito, um livro de fundamentos de lógica que faz o oposto disto,
>>>> e cujo estilo eu tenho recomendado para todo mundo é o recente *Foundations
>>>> of Logic: Completeness, Incompleteness, Computability*, do Dag
>>>> Westerståhl (um review que o Peter Smith sobre ele:
>>>> https://www.logicmatters.net/2024/08/21/book-note-westerstahl-foundations-of-logic-i-ii/).
>>>> Nas apresentações e provas o autor praticamente se coloca na perspectiva de
>>>> um aluno, adiantando várias questões e dúvidas que poderiam surgir; e
>>>> também busca provar vários resultados auxiliares/passos cruciais que a
>>>> literatura em geral ignora pois os toma como triviais ou não tão
>>>> relevantes---mas um aluno, na maioria das vezes, é ainda incapaz de fazer
>>>> essa curadoria. O livro faz isso tudo sem 'dumb down the content' em parte
>>>> alguma, o que eu acho incrível.
>>>>
>>>> Enfim, só os meus dois dedos de prosa sobre o assunto.
>>>> Grande abraço,
>>>> João F.
>>>>
>>>> Em seg., 14 de jul. de 2025 às 12:35, Joao Marcos <[email protected]>
>>>> escreveu:
>>>>
>>>>> "The desiccated "Theorem, Lemma, Proof, Corollary,..." presentational
>>>>> style is staggeringly counterproductive, if one's objective is
>>>>> actually communicating the underlying mathematical intuitions and
>>>>> thought processes behind a result."
>>>>> https://x.com/getjonwithit/status/1943232298977030348
>>>>>
>>>>> Uma das grandes dificuldades que matemáticos em formação encontram ao
>>>>> entrar na guilda para aprender os ossos do ofício é que nesta área não
>>>>> é habitual contar a história de como se chegou a um certo resultado, e
>>>>> o costumeiro, na realidade, é esconder tudo que deu errado pelo
>>>>> caminho...
>>>>>
>>>>> Alguns ainda vão mais além, e acrescentam que é importante "motivar
>>>>> mais" os resultados teóricos e também se esforçar mais por
>>>>> familiarizar os estudantes com a "história da área".  Tudo isto se
>>>>> aplica à Lógica, claro: o quão importante seria *para o aprendizado do
>>>>> neófito*, digamos, a ampla _motivação_ prática da introdução de certos
>>>>> métodos ou estratégias de raciocínio, ou a apresentação detalhada do
>>>>> _histórico_ de como certos conceitos foram paulatinamente
>>>>> desenvolvidos por estes ou aqueles gênios ou civilizações
>>>>> particulares?
>>>>>
>>>>> No geral, o que pensam os colegas sobre a forma clássica de exposição
>>>>> dos avanços matemáticos?
>>>>>
>>>>> []s, Joao Marcos
>>>>>
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