Oi todos!

Deixa eu fazer umas definições: uma "pessoa Bourbaki" é uma que gosta
do estilo Bourbaki e gosta de expôr idéias matemáticas de um jeito bem
abstrato, sem exemplos e sem motivação; uma "pessoa não-Bourbaki"
prefere incluir exemplos e motivação.

Até alguns anos atrás mesmo as pessoas não-Bourbaki precisavam fazer
papel de pessoas Boubaki pra conseguirem publicar, mas agora tem sites
de preprints e tem blogs, e as pessoas não-Bourbaki conseguem
"publicar" textos não-Bourbaki... em geral em formas que não dão
diretamente pontos em todos as métricas de produtividade, mas alguns
desses textos podem acabar virando artigos-Bourbaki algum dia.

É mais fácil a gente aprender a expôr idéias matemáticas num estilo
não-Bourbaki "com os outros" do que "sozinhos".

> No geral, o que pensam os colegas sobre a forma clássica de
> exposição dos avanços matemáticos?

Eu detesto o estilo Bourbaki e tou há anos aprendendo técnicas
não-Bourbaki de escrever e de pensar - e muitas outras pessoas da
lista também. Aliás, algumas já contaram os exemplos preferidos delas
de "técnicas não-Bourbaki" que elas aprenderam com os outros... e eu
acho que é por aí que a gente tem que começar.

Um dos professores que eu mais gostava quando eu tava na graduação em
Matemática na PUC-Rio - o Carlos Tomei - usava um monte de técnicas
não-Bourbaki, e ele sempre dizia que elas eram parte da cultura oral
dos matemáticos aplicados com quem ele tinha estudado, e elas não
estavam publicadas em lugar nenhum. Uma das técnicas principais dele
era assim: ele começava com um problema bem concreto, que tinha
algumas constantes que eram valores simples bem escolhidos, e nesse
caso a gente conseguia entender num instante a solução que ele
mostrava... e aí ele dizia "e isso vale pra qualquer valor de 200!", e
a gente via que a gente podia substituir certas constantes por uma
variável e obter uma técnica bem mais geral em que as contas tinham
exatamente a mesma estrutura - ou quase - que o caso particular com
que a gente tinha começado.

Aos poucos eu fui adaptando isso de vários jeitos e encontrando um
monte de bons critérios pra escolher os casos simples por onde eu
começava, e que eu generalizava depois. Um dos meus exemplos
preferidos é parecido com o que o Márcio Palmares mencionou no exemplo
dele... pra descobrir como encontrar a distância entre duas retas r e
s em R^3 é melhor começar com uma reta r paralela ao eixo x e uma reta
s parela ao eixo y, depois a gente permite que a reta s fique torta de
um certo jeito, depois a gente permite que ela fique torta de jeitos
mais complicados ainda, e depois a gente vai entortando a outra reta
aos poucos - e em caso passo a gente chega numa fórmula um pouco mais
complicada que a do passo anterior, mas que a gente ainda consegue
visualizar o que ela quer dizer.

O melhor artigo que eu já escrevi tem um bocado sobre isso,

  http://anggtwu.net/math-b.html#2022-md

mas não tem quase nada sobre como usar essas técnicas pra Geometria
Analítica, pra Cálculo, e pra Estatística Básica...

  [[]],
    Eduardo Ochs


On Tue, 15 Jul 2025 at 11:21, Márcio Palmares <[email protected]>
wrote:

> Tive um professor de cálculo fora de série... Um dia ele começou uma aula
> de cálculo II (início do volume II do Guidorizzi) propondo uma discussão
> com a turma sobre de que modo poderíamos determinar a projeção ortogonal de
> um vetor u sobre um vetor v... Intuitivamente, parecia óbvio que a projeção
> ortogonal seria obtida quando um certo "lambda-u menos v" tivesse a menor
> norma possível (ver figura). Ao tratar de escrever essa norma como função
> do escalar lambda, vemos que para minimizar a norma basta derivar a função
> obtida e verificar qual é o escalar que anula a primeira derivada...
>
> Como resultado dessa discussão, aparecem o escalar da "fórmula da projeção
> ortogonal" de um vetor sobre outro e, como um brinde, surge a desigualdade
> de "Cauchy-Schwarz".
>
> Nos livros, entretanto (por exemplo, no de Análise do Elon) essa
> desigualdade é demonstrada em um passe de mágica: aparece um polinômio
> quadrático não se sabe de onde, e uma desigualdade óbvia envolvendo o
> discriminante do polinômio é utilizada...
>
> A sensação que temos ao ler esse tipo de demonstração é tremendamente
> frustrante...
>
> Fiquei pensando: será que os livros podem ser deficitários neste aspecto e
> seria dever do professor suplantar a deficiência dos livros?
>
> O problema é que nem todos os professores têm a disposição de completar a
> deficiência dos livros com a exposição da gênese dos conceitos (em oposição
> à sua descrição o mais curta possível em uma demonstração).
>
> (Tive alguns professores que meramente transcreviam o livro-texto no
> quadro, mas felizmente foram exceções).
>
> Obs.: não é necessário que a gênese de certo conceito coincida com sua
> gênese histórica. Mesmo uma gênese conceitual "artificial" pode funcionar
> muito bem.
>
> A predominância dessa forma de exposição crua, que prejudica o
> aprendizado, tem raízes profundas, e quase certamente deriva do fato de
> que, em seus primórdios, o conhecimento matemático deveria estar disponível
> apenas para "iniciados". Obscurecer um conceito é uma garantia de
> preservação do status do escriba.
>
> M.
>
>
>
> Em terça-feira, 15 de julho de 2025, João Ferrari <[email protected]>
> escreveu:
>
>> Oi João,
>> como vai?
>>
>> Concordo 100% com o teor da thread. Acrescento ainda que uma coisa nessa
>> linha que me enfurecia nos meus tempos de graduação era ver esse estilo
>> minimal e 'corrido' sendo adotado por livros supostamente didáticos. Isto
>> é, além de entender a prova, o aluno tinha que fazer o trabalho de
>> detetive/médium para decifrar de onde autores tiraram certos passos
>> cruciais que pareciam ter aterrissado no meio da prova---isso quando tais
>> passos não eram ocultados sob a maldição do 'isto fica como exercício para
>> o leitor'. Acho que essa cultura tem minguado, de maneira geral, e a thread
>> captura corretamente essa tendência no que diz respeito à produção de
>> artigos.
>>
>> Ainda no contexto dos livros didáticos: eu até entendo a motivação, muito
>> popular na matemática, de fazer o leitor se engajar no conteúdo e praticar
>> enquanto lê. Mas penso que muitas vezes autores nem se dão conta de que
>> para aquilo se tornar um exercício produtivo, a pessoa que está lendo
>> precisa ter um bom arcabouço já solidificado na cabeça. Isso é
>> particularmente contraproducente no caso de quem se aventura por conta
>> própria na área, como foi o meu caso, inicialmente. Muitas vezes, a
>> impressão que eu tinha era de que você precisava já saber do conteúdo antes
>> de ler.
>>
>> A propósito, um livro de fundamentos de lógica que faz o oposto disto, e
>> cujo estilo eu tenho recomendado para todo mundo é o recente *Foundations
>> of Logic: Completeness, Incompleteness, Computability*, do Dag
>> Westerståhl (um review que o Peter Smith sobre ele:
>> https://www.logicmatters.net/2024/08/21/book-note-westerstahl-foundations-of-logic-i-ii/).
>> Nas apresentações e provas o autor praticamente se coloca na perspectiva de
>> um aluno, adiantando várias questões e dúvidas que poderiam surgir; e
>> também busca provar vários resultados auxiliares/passos cruciais que a
>> literatura em geral ignora pois os toma como triviais ou não tão
>> relevantes---mas um aluno, na maioria das vezes, é ainda incapaz de fazer
>> essa curadoria. O livro faz isso tudo sem 'dumb down the content' em parte
>> alguma, o que eu acho incrível.
>>
>> Enfim, só os meus dois dedos de prosa sobre o assunto.
>> Grande abraço,
>> João F.
>>
>> Em seg., 14 de jul. de 2025 às 12:35, Joao Marcos <[email protected]>
>> escreveu:
>>
>>> "The desiccated "Theorem, Lemma, Proof, Corollary,..." presentational
>>> style is staggeringly counterproductive, if one's objective is
>>> actually communicating the underlying mathematical intuitions and
>>> thought processes behind a result."
>>> https://x.com/getjonwithit/status/1943232298977030348
>>>
>>> Uma das grandes dificuldades que matemáticos em formação encontram ao
>>> entrar na guilda para aprender os ossos do ofício é que nesta área não
>>> é habitual contar a história de como se chegou a um certo resultado, e
>>> o costumeiro, na realidade, é esconder tudo que deu errado pelo
>>> caminho...
>>>
>>> Alguns ainda vão mais além, e acrescentam que é importante "motivar
>>> mais" os resultados teóricos e também se esforçar mais por
>>> familiarizar os estudantes com a "história da área".  Tudo isto se
>>> aplica à Lógica, claro: o quão importante seria *para o aprendizado do
>>> neófito*, digamos, a ampla _motivação_ prática da introdução de certos
>>> métodos ou estratégias de raciocínio, ou a apresentação detalhada do
>>> _histórico_ de como certos conceitos foram paulatinamente
>>> desenvolvidos por estes ou aqueles gênios ou civilizações
>>> particulares?
>>>
>>> No geral, o que pensam os colegas sobre a forma clássica de exposição
>>> dos avanços matemáticos?
>>>
>>> []s, Joao Marcos
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