Olá todos, olá Valeria,

Bem, dado o chamamento a opinar, vou fazer alguns comentários adicionais 
sobre alguns dos posts anteriores, de maneira rápida e curta... Quando eu 
quis compilar tudo o que eu gostaria de falar sobre a Hipótese do Contínuo, 
em 2015, o que saiu foi um minicurso de três sessões, cada uma com mais de 
60 slides ! Posso enviar o arquivo para quem me pedir off-list (e aceito 
convites para ministrar esse minicurso por aí, obviamente...).

1) O enunciado original de Cantor para CH é exatamente como Doria citou: 
não existe subconjunto da reta de tamanho intermediário entre o tamanho dos 
naturais e o tamanho da reta. Se assumimos o Axioma da Escolha (para que 
todo cardinal seja um aleph, i.e., para que toda cardinalidade seja 
bem-ordenável, digamos), aí temos o enunciado bonitinho do 2^{aleph_0} = 
aleph_1.

Tem coisas muito interessantes sobre esse enunciado original de Cantor, 
"não existir tamanho intermediário". Primeiro: ele pode ser demonstrado 
usando o Axioma da Determinação ! Lembrar, porém,  que o Axioma da 
Determinação (o qual declara, informalmente, que jogos cujo alvo sejam 
subconjuntos da reta sempre vão ter estratégia vencedora para algum dos 
jogadores) é incompatível com o Axioma da Escolha. 

Outra coisa muito interessante: se generalizamos de uma certa forma natural 
esse enunciado para qualquer conjunto infinito, chegamos num enunciado que 
podemos considerar como sendo a "Hipótese Generalizada do Contínuo", mas 
sem referência a alephs (essencialmente: "se X tem injeção para um certo Y 
que tem injeção para Partes de X, então Y tem que ser equipotente ou a X ou 
a Partes de X, não havendo possibilidades intermediárias"). Pois bem, esse 
enunciado generalizado implica o Axioma da Escolha !!! Isso não é muito 
divulgado por aí. Fiz um trabalho com um aluno de iniciação e destrinchamos 
essa equivalência, tenho os slides do projeto dele, também posso enviar 
para quem estiver interessado.

2) Outro fato que não é muito divulgado por aí: parafraseando Paulo Freire, 
"Cantor não acordou um dia às oito horas da manhã e conjecturou a Hipótese 
do Contínuo".

O que ocorre é que Cantor não conseguiu PRODUZIR, com seus métodos, nenhum 
conjunto de tamanho intermediário. Slogan: "para conjuntos que possam ser 
razoavelmente descritos, a Hipótese do Contínuo é verdadeira". O nascimento 
da Teoria dos Conjuntos pode ser traçado ao Teorema de Cantor-Bendixson, no 
qual Cantor enxergou uma recursão transfinita de comprimento maior do que 
omega brincando com pontos de acumulação de subconjuntos da reta. Pois bem, 
o Teorema de Cantor-Bendixson diz que: fechados não-enumeráveis da reta são 
necessariamente equipotentes à reta (diz um pouco mais do que isso, mas por 
hoje digamos que seja isso). A construção garante que, dado um fechado 
não-enumerável, esse fechado deve conter um subconjunto perfeito - i.e., um 
fechado sem pontos isolados. Pois bem, um lindo argumento com árvores 
binárias garante que qualquer subconjunto perfeito contém uma cópia do 
Conjunto de Cantor, e portanto tem a cardinalidade do contínuo.

"Conter uma cópia do conjunto de Cantor" é uma propriedade que garante à 
uma dada classe de conjuntos um certo carimbo de "regularidade", de "bom 
comportamento". 
Essa propriedade, conter uma cópia do Conjunto de Cantor, é chamada 
"propriedade do conjunto perfeito". Por exemplo, os analíticos (= projeções 
de borelianos) possuem essa propriedade (Luzin, 1917). Notar que se uma 
certa classe de conjuntos possui a propriedade do conjunto perfeito, então 
um contra-exemplo para a Hipótese do Contínuo não vai sair dessa classe !!! 
Assim, a Hipótese do Contínuo vale para toda classe de subconjuntos com a 
tal propriedade do conjunto perfeito, como são os fechados e os 
analíticos...(no sentido de que, para os fechados por exemplo, não existem 
tamanhos intermediários)

Obviamente que "ser Lebesgue mensurável" é um carimbo de bom comportamento 
possivelmente ainda maior; porém, existem projetivos (= conjuntos obtidos a 
partir de uma quantidade finita de projeções e complementos partindo de um 
boreliano) não Lebesgue mensuráveis assumindo-se V = L, o tal Axioma da 
Construtibilidade. 

(O Axioma da Determinação prova que todo subconjunto da reta é Lebesgue 
mensurável...)

3) Não sei exatamente o que Gödel queria provar quando fez a construção do 
modelo dos construtíveis; nós teoristas de conjuntos simplesmente pensamos 
em V = L como uma prova da *consistência* da Hipótese do Contínuo (e do 
Axioma da Escolha, de quebra...). O que eu posso dizer é que Cohen, o tal 
que inventou o forcing para mostrar a consistência da negação da Hipótese 
do Contínuo, esse sim acreditava e declarou abertamento lá no seu livro 
(procurem lá nas últimas duas páginas...) que a cardinalidade do contínuo 
deveria estar até acima de aleph_omega, que é o limite dos aleph_n.

O que Cohen parece pensar - e que eu, quando estou quase acordando de manhã 
ou quase dormindo de noite, tendo a pensar do mesmo jeito - é que o Axioma 
das Partes é uma espécie de animal selvagem, e exatamente por não poder ser 
dominado o continuo (que, como disse o Miraglia, mais estruturalmente do 
que ser a cardinalidade da reta é a cardinalidade das partes de omega !!!) 
não poderia ser alcançado nem usando o Axioma da Substituição a partir de 
omega... Rodrigo Freire tem uma visão muito mais lúcida do que eu nesse 
sentido, já conversamos a respeito, hehe.

4) A coisa do aleph_2: a maioria das tentativas razoáveis de falsear a 
Hipótese do Contínuo acaba levando o contínuo para aleph_2. Para começar, o 
Proper Forcing Axiom (que é uma versão mais forte do Axioma de Martin, 
sendo que este pode ser encarado como uma espécie de versão generalizada do 
Teorema de Baire para cardinais entre aleph_0 e o continuo) manda o 
contínuo para aleph_2; isso começa a envolver grandes cardinais, porque a 
consistência do Proper Forcing Axiom é usualmente obtida a partir de 
cardinais supercompactos.

(Sem citar nomes: diz a lenda que, nos anos 90, um lógico brasileiro 
declarava que, se mudarmos a lógica subjacente da Teoria dos Conjuntos - 
não sei exatamente como, essa história eu só ouvi falar mesmo -, então 
poderia ser DEMONSTRADO que o contínuo vale aleph_2 !!!)

5) Os trabalhos de Woodin nos anos 90 meio que misturam tudo o que eu falei 
nos 4 comentários anteriores. Ele escreveu dois surveys no Notices of 
American Society sobre esse trabalho, e também tem aquele famoso artigo da 
revista Quanta Magazine/Scientific American de +- 2013 ("Dispute over 
infinite divides mathematicians").

Contando assim em linhas gerais: como disse Miraglia, existe essa idéia de 
que deveria haver um "novo" axioma que decidisse a questão do continuum. 
Pois bem, o trabalho do Woodin nos anos 90 meio que entende esse axioma 
como sendo PD - o Axioma da Determinação Projetiva, o qual declara que os 
projetivos são determinados !!! Lembrar que AD, no qual todo subconjunto 
seria determinado, é incompatível com o Axioma da Escolha... "Não quero que 
todos subconjuntos da reta sejam determinados, mas quero que os projetivos 
sejam !!!"

Não existe uma implicação direta, mas a maquinaria de grandes cardinais e 
axiomas de forcing que Woodin construiu para obter a consistência de PD 
acaba caindo em versões ainda mais fortes do Axioma de Martin (MM - 
Martin's Maximum), e, de modo similar ao Axioma de Forcing Próprio, esses 
axiomas de forcing acabam levando o contínuo para aleph_2.

O que é curioso é que, depois de todo esse trabalho de mais ou menos 25 
anos que apontava para a negação da Hipótese do Contínuo, o que Woodin vem 
fazendo nos últimos dez anos vai no caminho oposto: ele está em busca de um 
certo "V = Ultimate L", que seria uma espécie de modelo padrão para a 
Teoria dos Conjuntos que teria algumas similaridades com V = L, porém seria 
compatível com "grandes grandes cardinais", o que não ocorre com V = L; "Se 
V = L, não existem mensuráveis" (Dana Scott). Isso de grandes grandes 
cardinais não é erro de digitação: os grandes grandes cardinais são aqueles 
que são definidos em termos de imersões elementares não-triviais do 
universo em modelos internos, e sabe-se que eles são "maiores ou iguais" 
(em termos de consistência) aos mensuráveis. Um cardinal mensurável é, 
tipicamente, um ponto crítico de uma imersão elementar não-trivial (= o 
menor ordinal que é movido pela imersão).


.... Resumo da ópera:

1) A Hipótese do Contínuo vale para conjuntos que possam ser razoavelmente 
descritos;

2) A Hipótese Generalizada do Contínuo, que vale no modelo construtível e 
portanto é consistente, é mais uma afirmação nesse sentido: se tudo
fosse muito organizado, "construtível", até a Hipótese Generalizada do 
Contínuo seria verdadeira;

3) Porém, da mesma forma que o Axioma da Escolha faz com que apareçam 
monstrinhos que não são mensuráveis - e aqui a organização vai no sentido 
contrário, de construir monstros, como no Paradoxo de Banach-Tarski !!! -, 
então assumir que existam conjuntos não-construtíveis/não-organizados 
possibilita que existam contra-exemplos para a Hipótese do Contínuo; mas 
esses contra-exemplos são, em certo sentido, "conjuntos feios";

4) O Axioma da Determinação prova a Hipótese do Contínuo como Cantor a 
conjecturou - porém, AD é incompatível como Axioma da Escolha ! Porém, o 
Axioma da Determinação Projetiva parece uma opção razoável que decide o 
contínuo como sendo aleph_2 porém necessita de grandes cardinais para ter 
sua consistência com ZFC demonstrada.

... Como em toda boa aula, espero que vocês saiam do meu texto com mais 
perguntas do que tinham antes, mas para boa parte delas muito possivelmente 
eu não sei a resposta !!!!

Atés,

[]s  Samuel















On Tuesday, October 8, 2019 at 2:24:48 PM UTC-3, Rodrigo Freire wrote:
>
> Artigo horroroso.
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>
> https://blogs.oglobo.globo.com/ciencia-matematica/post/o-que-maquina-pode-aprender.html
>   
>
>
>
>

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