Olá a todos! Peço licença para compartilhar algumas visões sobre o assunto. Debates sociológicos me interessam bastante. O evento em questão que deu origem a esta discussão é inclusive sobre ciências sociais, veja bem.
Acredito que o que está em jogo aqui são os limites da ideia de “representatividade”. É importante o interesse efetivo em dar visibilidade a grupos minoritários em espaços de notoriedade. O esforço de escolher pessoas desses grupos que já obtiveram sucesso em suas carreiras combate as camarilhas que de fato ocorrem entre aqueles já estão dentro dos círculos de prestígio. No entanto, não altera os condicionantes históricos, sociais e materiais que afastaram e continuam afastando as minorias desses círculos privilegiados. A ideia de que exista um pacto, mesmo que inconsciente, feito entre homens contra mulheres ou entre brancos contra negros é uma visão teórica advinda de um movimento nas ciências sociais decorrente dos estudos estruturalistas ou pós-estruturalistas. Eles possuem uma fundamentação pautada em aspectos psicológicos e linguísticos da atuação humana. Inclusive, possuem proximidades visíveis com a filosofia analítica, em especial com o positivismo lógico. Vêm de correntes teóricas que reivindicam o trabalho de Levi-Strauss, Foucault, Lacan etc. É nesse meio que surge a noção de “representatividade”. Porém, há uma crítica a essas correntes e seus teóricos. Essa crítica se fundamenta justamente na ausência de uma formulação que dê conta de abordar o desenvolvimento histórico da dominação social e suas origens materiais. Tanto o racismo quanto a misoginia têm origens claras na divisão do trabalho e estão atreladas à reprodução da vida social. Foi e ainda é preciso que haja uma “casta” de seres humanos adequados aos trabalhos subalternos e uma “casta” adequada aos trabalhos reprodutivos. Reside aqui a origem da dominação sexual e racial que condicionaram e ainda condicionam a ausência dessas minorias em ambientes de grande notoriedade. A saber, às pessoas negras e dos países do terceiro mundo ainda são delegados os trabalhos mais degradantes e às mulheres os trabalhos relacionados ao parto, ao cuidado materno e outras funções associadas. Nosso sistema econômico foi forjado assim e se alimenta dessa conformação. Por mais que a ideia de “representatividade” bata de frente com a hegemonia masculina e branca e aponte problemas reais que precisam ser superados, ela não ataca a raiz desses problemas. Portanto, não é capaz nos levar para o caminho da superação dos mesmos. De maneira alguma estou aqui advogando por abandonarmos o esforço de valorizar o trabalho de grupos subrrepresentados no ambiente acadêmico. Pelo contrário, tudo que estiver ao nosso alcance deve ser feito. De fato, o racismo e a misoginia certamente também operam através de “estruturas psíquicas”. As camarilhas existem. A reflexão aqui é no sentido de apontar que essas opressões vão muito além e por isso necessitam também de outras respostas. Tem algumas referências que gosto, algumas já explorei e outras ainda preciso me aprofundar mais. Não sobra muito tempo para ler as fontes originais com toda propriedade que elas exigem. Cito algumas: O estruturalismo e a miséria da razão - Carlos Nelson Coutinho (Obs.: esse livro é particularmente interessante nas críticas que faz a Wittgenstein e às influências do positivismo lógico nas ciências sociais) Integração do negro na sociedade de classes - Florestan Fernandes Feminismo para os 99% - Nancy Fraser Para além da identidade: da resistência à política - Douglas Alves Tive a oportunidade de fazer parte de algumas das discussões que deram origem a este último. Foi nessas discussões que entrei em contato com os outros livros que citei. Há mais indicações também, como Lélia Gonzalez, Frantz Fanon, Ângela Davis… são leituras que valem a pena. Em ter., 25 de jul. de 2023 às 21:40, Valeria de Paiva < [email protected]> escreveu: > Pois e', Marcos. > Concordo plenamente com > >Contudo, vale observar, com pesar, que, mesmo em um evento com uma visão, > digamos, mais progressista e cuidadosa em suas escolhas, uma questão > fundamental não aparece, a saber, a questao racial. > > precisamos melhorar muito! > Divirta-se em Buenos Aires! > Abraços, > Valeria > > > On Tue, Jul 25, 2023 at 2:17 PM Marcos Silva <[email protected]> > wrote: > >> Car@s, >> >> desculpas por chegar atrasado na importante discussão aqui. >> >> Gostaria apenas de destacar a imensa vitória que é trazer pela primeira >> vez um evento tão tradicional e importante como o CLMPTS para o hemisfério >> sul, especialmente para a América do Sul. >> >> Os esforços da comissão organizadora com o tema da desigualdade de gênero >> e com a distribuição geográfica de invited speakers e participantes é de >> fato visível e louvável. Estão de parabéns! >> >> Contudo, vale observar, com pesar, que, mesmo em um evento com uma visão, >> digamos, mais progressista e cuidadosa em suas escolhas, uma questão >> fundamental não aparece, a saber, a questao racial. >> >> Acho que em um continente como o nosso a questão racial não deveria ser >> negligenciada em nenhum âmbito, especialmente em esforços para a construção >> coletiva de conhecimento. >> >> Vale lembrar, que em menos de três séculos de colonialismo de potências >> europeias mais de 12 milhões de africanos escravizados foram sequestrados e >> trazidos para as Américas. E quase metade desta quantidade assombrosa foi >> trazida à força para o Brasil, por exemplo. >> >> Isto tem muitas e muitas consequências. Uma delas é termos um evento >> academico de vanguarda na America do Sul, onde nao há invited speakers de >> pele escura (https://clmpst2023.dc.uba.ar/invited-speakers/) e muito >> poucas pessoas não-brancas no comitê cientifico. >> >> A Cida Bento chama este fenomeno, infelizmente muito comum, de "pacto >> narcísico da branquitude". >> https://pt.wikipedia.org/wiki/Branquitude >> >> Abraços antirracistas desde Buenos Aires, >> Marcos >> >> >> >> >> >> >> >> >> >> >> >> On Sun, Jul 23, 2023 at 12:18 PM Hermógenes Oliveira < >> [email protected]> wrote: >> >>> Salve, Valéria, e demais. >>> >>> Bem, a memória do ser humano é falha, como sabemos, mas talvez convenha >>> compartilhar mais algumas recordações da conversa, pois foi muito >>> instrutiva para mim à época. >>> >>> O grupo vinha organizando "MANELS" mais por omissão ou acidente do que >>> por convicção. Com as reclamações em 2015, ficou meio que acordado que este >>> fator seria considerado de modo mais contundente na organização de eventos >>> posteriores. Entretanto, **não** foi colocado um embargo em "MANELS", >>> embora evitar "MANELS" tenha sido promovido para um dos fatores de maior >>> peso. >>> >>> Minha única contribuição para a conversa, pelo que me recordo, foi >>> compartilhar o relato de uma jovem pesquisadora de destaque, com a qual >>> esbarrei num evento de lógica, quem lamentava estar sendo inundada por >>> convites. Como ela considerava a causa justa, sentia-se pressionada a >>> aceitar os convites, porém já estava ficando "farta de eventos e >>> conferências" e sentia-se meio que usada como espécie de trunfo anti-MANEL. >>> >>> É costumeiro julgar um evento, principalmente na fase inicial de >>> organização, por meio da notoriedade do painel de palestrantes convidados. >>> Junte-se a escassez de mulheres na área com outros fatores como conflitos >>> de agenda, falta de entusiasmo por viagens transoceânicas e etc, e a tarefa >>> de se evitar um "MANEL" pode se tornar bastante melindrosa. De fato, foi >>> mencionado que alguns dos "MANELS" organizados anteriormente foram >>> acidentais, isto é, mulheres foram inicialmente convidadas (não como medida >>> consciente de evitar um "MANEL"), mas recusaram por razões diversas. >>> >>> Por estas e outras razões, fixou-se o entendimento de que se evitar >>> "MANELS" a todo e qualquer custo, não seria proveitoso. Por exemplo, numa >>> suposta situação logística desesperadora, esgotadas as opções razoáveis, >>> não seria propício (e talvez fosse mesmo ofensivo) estender convites a >>> pessoas apenas longinquamente relacionadas com a temática do evento, de >>> modo que ficasse patente que a pessoa estava sendo convidada *única e >>> exclusivamente* por causa do seu gênero. Felizmente, parece que este tipo >>> de situação hipotética se mostrou bem menos factível do que se antecipava. >>> >>> Enfim, as reclamações em 2015, além de não gerarem qualquer desconforto >>> (pelo que me recordo), suscitaram mudanças positivas. Portanto, creio que >>> ainda pode valer a pena reclamar, sim. Também acho razoável, contudo, >>> adotar cautela ao atrelar malícia, ou um posicionamento consciente sobre o >>> desequilíbrio de gênero na área, com base **apenas** na organização de um >>> evento com "MANEL". Claro, independente das razões por traz do "MANEL", >>> seja por fatores incontornáveis de logística organizativa ou simples >>> obtusidade, reclamar é sempre legítimo e, eu diria, necessário. >>> >>> Cordialmente, >>> >>> -- >>> Hermógenes Oliveira >>> >>> -- >>> LOGICA-L >>> Lista acadêmica brasileira dos profissionais e estudantes da área de >>> Lógica <[email protected]> >>> --- >>> Você recebeu essa mensagem porque está inscrito no grupo "LOGICA-L" dos >>> Grupos do Google. >>> Para cancelar inscrição nesse grupo e parar de receber e-mails dele, >>> envie um e-mail para [email protected]. >>> Para ver essa discussão na Web, acesse >>> https://groups.google.com/a/dimap.ufrn.br/d/msgid/logica-l/695ab370-406b-4b2f-b2c1-5e74712dd401n%40dimap.ufrn.br >>> <https://groups.google.com/a/dimap.ufrn.br/d/msgid/logica-l/695ab370-406b-4b2f-b2c1-5e74712dd401n%40dimap.ufrn.br?utm_medium=email&utm_source=footer> >>> . >>> >> >> >> -- >> Marcos Silva (UFPE/CNPq) >> Philosophy Department >> Federal University of Pernambuco, Brazil >> President of the Brazilian Society for Analytical Philosophy (SBFA >> <https://sites.google.com/view/sbfa-sbpha/in%C3%ADcio?authuser=0>) >> Director of Graduate Studies (PPGFIL/UFPE >> <https://www.ufpe.br/ppgfilosofia/>) >> Editor-in-chief Revista Perspectiva Filosófica >> <https://periodicos.ufpe.br/revistas/perspectivafilosofica> >> https://sites.google.com/view/marcossilvaphilosophy >> "amar e mudar as coisas me interessa mais" >> >> -- >> LOGICA-L >> Lista acadêmica brasileira dos profissionais e estudantes da área de >> Lógica <[email protected]> >> --- >> Você recebeu essa mensagem porque está inscrito no grupo "LOGICA-L" dos >> Grupos do Google. >> Para cancelar inscrição nesse grupo e parar de receber e-mails dele, >> envie um e-mail para [email protected]. >> Para ver essa discussão na Web, acesse >> https://groups.google.com/a/dimap.ufrn.br/d/msgid/logica-l/CAGZ3pzLmYqoM6qKiHHQJ-e1-h7dKXrWaWGb-yG8AKykntp-gVg%40mail.gmail.com >> <https://groups.google.com/a/dimap.ufrn.br/d/msgid/logica-l/CAGZ3pzLmYqoM6qKiHHQJ-e1-h7dKXrWaWGb-yG8AKykntp-gVg%40mail.gmail.com?utm_medium=email&utm_source=footer> >> . >> > -- > LOGICA-L > Lista acadêmica brasileira dos profissionais e estudantes da área de > Lógica <[email protected]> > --- > Você recebeu essa mensagem porque está inscrito no grupo "LOGICA-L" dos > Grupos do Google. > Para cancelar inscrição nesse grupo e parar de receber e-mails dele, envie > um e-mail para [email protected]. > Para ver essa discussão na Web, acesse > https://groups.google.com/a/dimap.ufrn.br/d/msgid/logica-l/CAESt%3DXsqPo_utkqcJw7KR3m%3Dpo6FdOmGK%2BakGqb6LzDQjY5SFA%40mail.gmail.com > <https://groups.google.com/a/dimap.ufrn.br/d/msgid/logica-l/CAESt%3DXsqPo_utkqcJw7KR3m%3Dpo6FdOmGK%2BakGqb6LzDQjY5SFA%40mail.gmail.com?utm_medium=email&utm_source=footer> > . > -- LOGICA-L Lista acadêmica brasileira dos profissionais e estudantes da área de Lógica <[email protected]> --- Você está recebendo esta mensagem porque se inscreveu no grupo "LOGICA-L" dos Grupos do Google. 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