1. Seria interessante se alguém colocasse aqui uns liames para os artigos
originais do Gödel na internet, ou traduções confiáveis. Cotejar o que ele
escreveu com o que foi feito por outros depois é um bom método para guiar
mais claramente a discussão.

2. A questão de tratar da incompletude num meta-nível qualquer não se
restringe a discutir as características do sistema de representação que vai
ser usado. O que estava em discussão para Gödel e contemporâneos eram os
limites do próprio método axiomático e da própria relação entre matemática
e lógica.

Como sabemos disso? Sabemos disso porque no século XIX esses dois temas
tinham dominado os debates lógicos e tinham crescido cada vez mais. Foi
nesse período que surgiram as lógicas multivalentes.

Gödel conhecia o trilema de Aristóteles, sabia das limitações do método
axiomático e também versões anteriores do paradoxo do mentiroso. Hilbert
quando escreveu seu manifesto (que as pessoas podem ler no livro de
Carnielli e Epstein) aparentava não estar consciente dessas coisas.

Em segunda-feira, 30 de dezembro de 2019, Rodrigo Freire <
[email protected]> escreveu:

> Legal, vamos ver como o teorema de Godel na versão que mencionei (TMR) *se
> aplica* nesse caso sem aritmetização no sentido usual (sequer há um
> predicado para os números naturais). Depois analiso a falha de
> representabilidade.
>
> Sim, a teoria dos corpos reais fechados (corpos ordenados tais que todo
> positivo é quadrado e todo polinômio satisfaz o teorema do valor
> intermediário) e a teoria dos corpos algebricamente fechados de
> característica zero são completas e decidiveis. Vou considerar a teoria dos
> corpos reais fechados, denotada por T.
>
> Os termos fechados dessa teoria são termos para números inteiros. Vamos
> pensar na seguinte correspondência 1-1 entre termos e fórmulas: enumeramos
> os teoremas com os números negativos e os não teoremas com os não
> negativos. Se F é fórmula, ‘F’ será o termo fechado correspondente ao
> número na numeração acima. Por exemplo, se F é o primeiro teorema, ‘F’ será
> o termo -1. Se F é o primeiro não teorema, ‘F’ é o termo 0.
>
> Assumida essa correspondência entre fórmulas e termos fechados, temos que
> a teoremicidade de T é representada pela fórmula x<0.
> De fato, se F é teorema, ‘F’ < 0 é teorema de T, e se F não é teorema,
> ~(‘F’ < 0) é teorema de T.
>
> O teorema de Godel se aplica e T não representa a diagonalização (para a
> correspondência entre fórmulas e termos). T falha em representar a
> metamatemática elementar, portanto falha em fornecer uma representação
> formal exaustiva da matemática.
>
>
> Poderíamos dizer que a representabilidade falha porque essas teorias
> admitem eliminação de quantificadores: os quantificadores não adicionam
> poder de definibilidade dentro dessa teoria. Mas esse não é um resultado
> óbvio, que está presente desde o início, por isso essa resposta pode não
> ser satisfatória.
>
> O que é mais básico é que T não é suposta ser uma representação formal
> exaustiva da matemática. Ao contrário, desde o início se sabe que muita
> coisa fica de fora. T não é capaz de representar outras funções contínuas
> elementares (e.g. exponencial) além dos polinômios.
>
> Mas Essa teoria não está sozinha nisso. A dicotomia de Godel implica que,
> dada uma T consistente e uma correspondência entre fórmulas e termos
> fechados de T, pelo menos uma entre diagonalização e representabilidade
> escapa à representação formal em T. Ou seja, não temos uma representação
> formal exaustiva da matemática.
>
> Abraço
> Rodrigo
>
>
>
>
> > Em 29 de dez de 2019, à(s) 23:38, Carlos Gonzalez <[email protected]>
> escreveu:
> >
> > 
> > Prezado Chico e lista,
> >
> > Já que estamos no problema da representabilidade da aritmética, quero
> mencionar uma questão que gerou bastante confusão décadas atrás e que
> talvez alguns lógicos mais novos desconheçam.
> >
> > Trata-se de teorias de corpos ordenados. Algumas delas (característica
> zero? corpos algébricos completos?) são completas e não se aplica o Teorema
> de Incompletude.
> > Esses corpos tem o zero, o 1, e as operações adição e multiplicação.
> > Por exemplo: tem 0, 1, 1+1, 1+1+1, etc.
> > Não tem um predicado "x é um número natural" e não tem as definições
> recursivas de adição e produto.
> > O que poderíamos dizer de por que falha a representabilidade?
>
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